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Edição 119 | EXPEDIENTE
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  O que fazer quando o estômago queima?
Se aparece com frequência, a azia pode ser o sinal de um problema mecânico relacionado à doença mais comum do tubo digestivo: o refluxo gastroesofágico

Cristina Almeida
Fabio Mangabeira

Má digestão, nenhuma felicidade. Assim é o dito popular que sintetiza o significado do quanto pode ser incômodo um mal-estar que se manisfesta após uma refeição farta. Essa sensação, conhecida como azia, refluxo gastroesofágico ou refluxo, é um sintoma consequente ao retorno dos ácidos estomacais para o esôfago, tubo que conecta a boca à cavidade abdominal. Para alcançar o estômago, os alimentos seguem por ele em direção a um específico músculo circular: o esfíncter esofágico inferior (EEI), cuja função é manter a entrada do estômago fechada.
Quando esse músculo perde sua elasticidade, ou permanece aberto, o refluxo acontece. Os resultados são dor e queimação, o que se agrava à noite, principalmente na posição deitada. Às vezes, essa sensação é tão intensa que pode ser confundida com um ataque cardíaco. Nos casos crônicos, os sintomas podem ser exacerbados: crise asmática, tosse, rouquidão e até desgaste do esmalte dentário.

Quando procurar ajuda?
Estima-se que 10% dos adultos apresentem esse sintoma diariamente e cerca de 40% experimentam o problema em algum momento da vida. "No Brasil, uma pesquisa realizada em 22 cidades mostrou que 12% da população sente esse desconforto, uma ou duas vezes por semana, e 7% mais de duas ou três vezes no mesmo período", relata Schlioma Zaterka, gastroenterologista e presidente honorário do Núcleo Brasileiro para o Estudo do Helicobacter pylori.

Para os especialistas, o ritmo da vida moderna, que impõe a prática de refeições rápidas e irregulares, é uma das causas da ocorrência desse sintoma de vez em quando. Sentir azia, regurgitar e ter maior dificuldade de digestão, após um abuso ocasional no comer ou beber, é considerado normal. "Mas quando essa sensação é muito frequente, como duas ou três vezes por semana, ou se ela aparece mesmo sem que tenha havido exageros alimentares, há algum problema que merece investigação", explica Jaime Natan Eisig, chefe do Grupo de Estômago da disciplina de Gastroenterologia Clínica, do Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

No Brasil, uma pesquisa mostrou que 12% da população sente azia uma ou duas vezes por semana e 7% mais de duas ou três vezes no mesmo período

"A azia pode ser um estado fisiológico e, portanto, natural, se acontece espaçadamente. Se ela persiste e se repete por longo período de tempo, um gastroenterologista poderá avaliar o caso", fala Mario Martins, médico coordenador da área de Saúde Ocupacional da Reckitt Benckiser.

Procurar ajuda especializada tem uma razão de ser. A reincidência do sintoma pode estar relacionada ao mal mais prevalente do tubo digestivo, a doença do refluxo gastroesofágico. "São várias as causas dessa patologia, mas a mais importante é o relaxamento do EEI", diz Eisig.

Problemas mecânicos
Esse músculo possui má posição anatômica que, alterada por flacidez ou enfraquecimento, apresenta um defeito mecânico que possibilita o avanço anormal do estômago, conhecido como hérnia de hiato. Hábitos de vida como comer depressa e quantidades exageradas, consumo de bebidas alcoólicas e refrigerantes em excesso, bem como frituras, também aumentam a acidez estomacal e não permitem digestão adequada.

Além disso, "tudo o que gera pressão abdominal deve ser considerado causa possível da má digestão e do mal-estar. Obesidade, gravidez e até o costume de se deitar após as refeições podem influenciar", fala Martins.

O que esperar da consulta
No consultório, o médico estará atento à história do paciente. De acordo com a intensidade e duração dos sintomas apresentados, exames laboratoriais podem ser requisitados. "Quando os sinais são mais graves, solicitamos endoscopia, cintilografia, manometria (teste terapêutico para medida de pressão dos espasmos do esôfago), e o pH de 24 horas (para avaliar a acidez)."

O tratamento dependerá da perfeita identificação da causa e prevê sempre a orientação sobre medidas comportamentaise alimentares, capazes de diminuir o refluxo. Os medicamentos mais utilizados são os que agem na produção de ácido clorídrico, como os inibidores da bomba de prótons (IBP) e os antagonistas de receptores de histamina. Utilizam-se também os procinéticos, que aumentam a capacidade de esvaziamento do estômago, tornando a digestão mais acelerada.

Algumas pessoas acreditam que tomar água gelada ou leite alivia a azia. Os médicos discordam: se a azia é crônica, o líquido não altera o problema mecânico

 

Alívio imediato
Schlioma Zaterka esclarece que há, ainda, uma nova classe de remédios denominada alginatos, feitos a partir de algas marinhas. "Eles formam uma espécie de gel que funciona como uma barreira na parte superior do estômago, evitando o refluxo."

Algumas pessoas acreditam que água gelada alivia o sintoma e usam essa estratégia para controlá-lo. Entretanto os médicos informam que essa impressão não corresponde à realidade. "Se a azia é crônica, a água não altera esse estado", diz Martins.

E Jaime Eisig adverte: "É preciso estar atento para que uma simples azia, que pode melhorar com um antiácido comum, não esteja mascarando alguma doença mais séria. Quando os sintomas forem muito frequentes, o melhor a ser feito é mesmo procurar ajuda médica".

 

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