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Edição 79 | EXPEDIENTE
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  Gripe Suína
Acompanhe como um vírus e seu histórico de mutações genéticas trouxeram novo pânico à humanidade

POR STELLA GALVÃO
 FOTOS: DIVULGAÇÃO / SHUTTERSTOCK

A história se repete ao longo dos séculos, registrando a cada 10 ou 50 anos uma doença causada pelo vírus influenza e baseada nos sintomas clínicos do que hoje conhecemos como gripe. Estão nessa lista os faraós no Egito (2500 a.C); os chineses no ano 500 a.C; muitos povos nos séculos seguintes; praticamente o mundo todo em 1918; agora o México em abril de 2009. Neste mês que o mundo foi novamente sacudido por uma ameaça que nunca saiu totalmente de cena. E, sempre que retorna, vem como uma velha senhora repaginada. É mutação a palavrachave para entender por que o festival de espirros e coriza, acompanhados ou não de febre, dores generalizadas pelo corpo e prostração, é mais do que uma doença sazonal, combatida com chás, repouso e fórmulas antigripais. Recomeçou entre os mexicanos, mas já faz vítimas mundo afora.

MULTIDÃO DE MASCARADOS
“O que ocorre é o surgimento de vírus novos, com material genético diferente daqueles micro-organismos que já conhecemos”, afirma o infectologista Stefan Cunha, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, autor do livro A história da humanidade contada pelos vírus (Editora Contexto, 2008). O influenza, explica ele, vive nas aves aquáticas, migratórias e selvagens que, por sua vez, eliminam continuamente o vírus na natureza (lagos, represas etc.), fazendo com que possam alcançar outros animais,até mesmo nós, humanos, na cadeia de seres vivos. Foi o que aconteceu em abril último. Um vírus com novas características — ainda que parente próximo daquele brando que nos faz espirrar sempre que a temperatura cai, a poluição aumenta ou a imunidade oscila — assumiu o horário nobre dos noticiários e fez surgir multidões de mascarados, com medo da transmissão pelo ar comum respirado.

A primeira vítima, que morreu cinco dias após apresentar os primeiros sintomas, foi uma fiscal de censo que trabalhava de porta em porta em uma província mexicana. Ou seja, contraiu o vírus e o disseminou, sem saber ser portadora — o risco de transmissão entre humanos é maior nos primeiros dez dias de contato. Como novos casos não paravam de aparecer, os médicos enviaram sua secreção para análise no Centers for Disease Control and Prevention (CDC), em Atlanta, o centro de vigilância epidemiológica nos EUA. Foi lá que se confirmou tratar-se de um vírus tipo A, subtipo H1N1, cuja estrutura se assemelha ao da gripe espanhola.

PORCOS E AVES
Nessa primeira grande pandemia de gripe que o mundo tomou conhecimento, com o avanço do vírus para amplas áreas do planeta (na epidemia, ao contrário, os episódios são restritos a uma região ou país), morreram entre 20 milhões e 40 milhões de pessoas. No Brasil, foram 35.240 mortes. Como no caso atual, tratavase de um vírus muito diferente do que já havia circulado e que, portanto, não encontrou imunidade prévia na população. Também é importante o tipo de resposta imune que ele desencadeia. Aparentemente, a linhagem que causou a gripe espanhola em 1918 produz uma resposta imune muito violenta nos infectados.

“As mutações sempre existiram, mas hoje há o agravante de mais aglomerações de animais do que antes. Criações de porcos são um caldeirão para surgirem novos vírus porque recebem aves migratórias e, muitas vezes, dividem o mesmo espaço com criação de aves”, traduz Stefan Cunha. Por outro lado, homens e porcos têm, como espécie diferenciada, seus tipos de vírus influenza, como também as aves.
Ainda conforme o infectologista,caso o porco seja infectado por um vírus da ave e outro humano, ele pode estar com dois ou três vírus diferentes.

No porco ocorre, então, uma mistura dos genes e formação de um novo vírus desconhecido para o homem. “É assim que nasce uma nova pandemia”, explica Cunha. Ele acrescenta que o nosso próprio vírus humano sofre pequenas mutações que o tornam diferente ano após ano. É por essa razão que todas as pessoas podem ter gripe todos os anos. É também por isso que a vacina contra o vírus da influenza humana é continuamente atualizada. As doses aplicadas num ano não têm qualquer efeito no ano seguinte porque o vírus já mudou.

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