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Edição 82 | EXPEDIENTE |
Recente pesquisa divulgada pelo Jornal da Associação Médica Americana revela: mais da metade dos pacientes entre 57 e 85 anos tomam cinco remédios diferentes por dia. E os efeitos desse excesso são sentidos em todo o corpo Por Juliana Tirabosch
Uma reportagem do jornal The New York Times, publicada em abril de 2008, conta que o odontologista norte-americano Richard A. Nathan, da cidade de São Francisco, recebeu certo dia em seu consultório uma paciente que precisava extrair o dente, uma pequena cirurgia. Ela avisou que estava tomando dois tipos de medicamentos, um para controlar o colesterol e o outro para pressão alta. Nenhum deles, pensou o profissional, interferiria no tratamento. Porém ele se surpreendeu quando a paciente retornou dias depois com um sangramento severo e uma infecção. Segundo Nathan, ela aparentava ter diabetes não controlado ou um sistema imune gravemente comprometido, para sofrer tais efeitos. Nem uma coisa nem outra. A paciente admitiu que tomava diversos suplementos alimentares, totalizando nada mais, nada menos, do que 43 pílulas e cápsulas por dia. Cinco desses suplementos - cháverde, ginkgo biloba, óleo de salmão, açafrão e vitamina E - são conhecidos por aumentar sangramentos porque inibem a agregação de plaquetas, que formam os coágulos. Depois de uma semana de suspensão dos suplementos, a boca da paciente finalmente começou a cicatrizar. Essa história, ainda que extrema, exemplifica um problema mais comum do que imaginamos: o risco das interações medicamentosas negativas, ou seja, quando dois ou mais remédios ou substâncias como os fitoterápicos, ingeridos concomitantemente, aumentam a quantidade ou a gravidade das reações adversas dos medicamentos. Quem sofre mais? Tal costume também é muito comum no Brasil. Segundo Maurício Wajngarten, diretor do setor de Cardiogeriatria do Instituto do Coração (Incor), o banco de dados da instituição aponta que os idosos atendidos tomam em média 6,5 remédios ao mesmo tempo. Para o médico, há três razões principais para esse excesso. A primeira é a mais lógica: os mais velhos têm muitos diagnósticos ao mesmo tempo; são problemas cardíacos, de articulação etc. Além disso, a prevenção de doenças requer mais medicamentos, como a aspirina, para evitar problemas no coração. A segunda é que hoje, para tratar uma doença, por exemplo a hipertensão, é comum usar mais de um remédio, mas em doses mais baixas, evitando efeitos colaterais que costumam aparecer com a dosagem alta de um princípio ativo. A terceira razão é a automedicação. O estudo publicado no JAMA aponta que metade das pessoas com 50 anos ou mais toma remédios por conta própria nos EUA, incluindo vitaminas ou fitoterápicos. Uma pesquisa da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo concluiu que, dentre 100 idosos, 11 tomavam ginkgo biloba, fitoterápico indicado para melhorar a memória e a cognição, o que faz a substância ocupar o 9.° lugar no ranking das mais ingeridas pelos pacientes. A ação do fitoterápico
Soma-se a isso o fato de o paciente acima de 60 anos ser mais sensível a substâncias químicas. "A dose que se prescreve para um adulto nem sempre é a melhor para pessoas mais velhas. O ideal é começar com uma dosagem pequena", diz Juliana Locatelli, farmacêutica clínica da Unidade de Geriatria no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Ela coordenou um estudo, em 2007, com 155 idosos internados no hospital. Foi constatado que esses pacientes tomavam cerca de 13 medicamentos por dia, com uma média de quatro interações potencialmente graves por paciente. Esse é outro ponto importante: quando o paciente está internado em um hospital por algum motivo, aumenta ainda mais a quantidade de remédios necessários para controlar seus problemas de saúde. Segundo a farmacêutica, os remédios mais comumente encontrados nessa pesquisa foram hipoglicemiantes, para diabetes, anticoagulantes, para problemas cardíacos, e antibióticos. Sempre informe seu médico sobre o remédio que está tomando. Mesmo os fitoterápicos podem provocar efeitos colaterais Cascata medicamentosa
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