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Edição 119 | EXPEDIENTE
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  Quando o remédio pode fazer mal
Recente pesquisa divulgada pelo Jornal da Associação Médica Americana revela: mais da metade dos pacientes entre 57 e 85 anos tomam cinco remédios diferentes por dia. E os efeitos desse excesso são sentidos em todo o corpo

Por Juliana Tirabosch

Uma reportagem do jornal The New York Times, publicada em abril de 2008, conta que o odontologista norte-americano Richard A. Nathan, da cidade de São Francisco, recebeu certo dia em seu consultório uma paciente que precisava extrair o dente, uma pequena cirurgia. Ela avisou que estava tomando dois tipos de medicamentos, um para controlar o colesterol e o outro para pressão alta. Nenhum deles, pensou o profissional, interferiria no tratamento.

Porém ele se surpreendeu quando a paciente retornou dias depois com um sangramento severo e uma infecção. Segundo Nathan, ela aparentava ter diabetes não controlado ou um sistema imune gravemente comprometido, para sofrer tais efeitos. Nem uma coisa nem outra. A paciente admitiu que tomava diversos suplementos alimentares, totalizando nada mais, nada menos, do que 43 pílulas e cápsulas por dia.

Cinco desses suplementos - cháverde, ginkgo biloba, óleo de salmão, açafrão e vitamina E - são conhecidos por aumentar sangramentos porque inibem a agregação de plaquetas, que formam os coágulos. Depois de uma semana de suspensão dos suplementos, a boca da paciente finalmente começou a cicatrizar.

Essa história, ainda que extrema, exemplifica um problema mais comum do que imaginamos: o risco das interações medicamentosas negativas, ou seja, quando dois ou mais remédios ou substâncias como os fitoterápicos, ingeridos concomitantemente, aumentam a quantidade ou a gravidade das reações adversas dos medicamentos.

Quem sofre mais?
O problema é particularmente acentuado em pacientes acima dos 60 anos, já que eles costumam ingerir mais remédios. Um estudo publicado em janeiro deste ano no Jornal da Associação Médica Americana (JAMA) mostra que mais da metade desses pacientes toma acima de cinco medicamentos ao mesmo tempo, aumentando o risco de interações negativas. O estudo, feito pelo Instituto Nacional de Saúde e a Universidade de Chicago, contemplou 2.976 adultos com idades entre 57 e 85 anos e concluiu que pelo menos 10% dos entrevistados usam combinações medicamentosas de alto risco. Na maioria das vezes, como no exemplo da paciente dentária, essas interações estão relacionadas a substâncias que têm efeito anticoagulante, ou seja, que afinam o sangue, e que podem agravar sangramentos (veja quadro Cruzamento perigoso para saber quais são as interações mais comuns).

Tal costume também é muito comum no Brasil. Segundo Maurício Wajngarten, diretor do setor de Cardiogeriatria do Instituto do Coração (Incor), o banco de dados da instituição aponta que os idosos atendidos tomam em média 6,5 remédios ao mesmo tempo. Para o médico, há três razões principais para esse excesso. A primeira é a mais lógica: os mais velhos têm muitos diagnósticos ao mesmo tempo; são problemas cardíacos, de articulação etc.

Além disso, a prevenção de doenças requer mais medicamentos, como a aspirina, para evitar problemas no coração. A segunda é que hoje, para tratar uma doença, por exemplo a hipertensão, é comum usar mais de um remédio, mas em doses mais baixas, evitando efeitos colaterais que costumam aparecer com a dosagem alta de um princípio ativo.

A terceira razão é a automedicação. O estudo publicado no JAMA aponta que metade das pessoas com 50 anos ou mais toma remédios por conta própria nos EUA, incluindo vitaminas ou fitoterápicos. Uma pesquisa da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo concluiu que, dentre 100 idosos, 11 tomavam ginkgo biloba, fitoterápico indicado para melhorar a memória e a cognição, o que faz a substância ocupar o 9.° lugar no ranking das mais ingeridas pelos pacientes.

A ação do fitoterápico
É bom lembrar que os fitoterápicos não são inofensivos apenas por serem naturais, e em combinação com drogas industrializadas podem provocar reações graves. Segundo a médica legista Jan Garavaglia, autora do livro Como não morrer! (Ed. Prumo), praticamente uma em cada cinco pessoas nos EUA diz usar um fitoterápico para resolver algum problema de saúde ou para melhorar a qualidade de vida. Porém mais da metade não informa os médicos.

Soma-se a isso o fato de o paciente acima de 60 anos ser mais sensível a substâncias químicas. "A dose que se prescreve para um adulto nem sempre é a melhor para pessoas mais velhas. O ideal é começar com uma dosagem pequena", diz Juliana Locatelli, farmacêutica clínica da Unidade de Geriatria no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Ela coordenou um estudo, em 2007, com 155 idosos internados no hospital. Foi constatado que esses pacientes tomavam cerca de 13 medicamentos por dia, com uma média de quatro interações potencialmente graves por paciente. Esse é outro ponto importante: quando o paciente está internado em um hospital por algum motivo, aumenta ainda mais a quantidade de remédios necessários para controlar seus problemas de saúde.

Segundo a farmacêutica, os remédios mais comumente encontrados nessa pesquisa foram hipoglicemiantes, para diabetes, anticoagulantes, para problemas cardíacos, e antibióticos.

Sempre informe seu médico sobre o remédio que está tomando. Mesmo os fitoterápicos podem provocar efeitos colaterais

Cascata medicamentosa
Até alguns tipos de alimento, como o cálcio dos laticínios, pode prejudicar a absorção de drogas ou piorar os efeitos colaterais. "Qualquer substância ingerida pode fazer mal ao organismo", diz Wajngarten. Dessa forma, é preciso ficar atento para os horários adequados de tomar remédio. "Alguns devem ser tomados em jejum, pois os alimentos prejudicam sua absorção", diz Juliana.

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