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Saiba identificar dificuldades com a leitura em crianças

Publicado em 16 de Oct de 2013 por Leticia Maciel | Comente!

Algumas crianças têm dificuldade em aprender a ler devido a quadros clínicos. Saiba quando é a hora de procurar um pediatra



Texto: Ivonete Lucirio/ Foto: Shutterstock/ Adaptação: Letícia Maciel

Se um dos pais for dislexo, a chance de o filho também ser é de até 65%
Foto: Shutterstock

Com oito anos, a criança já deveria ser capaz de ler e escrever palavras mais simples. Mas muitas vezes não é isso que acontece. Os resultados da Prova ABC, aplicada pelo Ministério da Educação e pelo movimento Todos pela Educação, publicados em junho de 2012, mostram essa realidade. Metade das crianças avaliadas – 54 mil alunos de 1,2 mil escolas públicas e privadas – apresenta dificuldade para ler. É claro que, na maior parte dos casos, essa incapacidade é resultado de falha na metodologia de ensino. Mas isso não explica tudo. Muitas crianças não aprendem a ler por apresentarem alguma dificuldade cognitiva. A mais conhecida é a dislexia, mas há ainda outros problemas. Conheça, a seguir, os principais.

Dislexia

“Não se trata de uma doença, mas do funcionamento peculiar do cérebro no que diz respeito ao processamento da linguagem”, explica a fonoaudióloga Karina de Araujo Ciquiguti, mestre e doutora em semiótica e linguística geral pela Universidade de São Paulo (USP). As causas exatas não estão totalmente esclarecidas. “Mas é sabido que o cérebro do disléxico processa de maneira diferente as informações que chegam via linguagem escrita. A dificuldade está em identificar, separar e juntar os sons que compõem as palavras”, explica o fonoaudiólogo Jaime Luiz Zorzi, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa). Entre 5 e 10% da população apresenta dislexia em algum nível. O transtorno é hereditário. Se um dos pais for disléxico, a chance de a criança ser também é de até 65%. O diagnóstico mais efetivo acontece após o processo de alfabetização. “Antes disso, é possível apenas apontar fatores de risco indicativos do quadro”, diz Karina.
Principais sinais: dificuldade em aprender os nomes das letras ou sons do alfabeto. O disléxico confunde conceitos de direita esquerda, embaixo e em cima, frente e atrás, e não consegue entender rimas.
Tratamento: é multidisciplinar e envolve profissionais da saúde e da educação, como fonoaudiólogos e psicopedagogos.

Síndrome de Irlen

É uma alteração na percepção visual, causada por um desequilíbrio na capacidade de os olhos se adaptarem à luz. A criança apresenta fotofobia e se sente desconfortável com o reflexo da luz no papel branco, incômodo que surge depois de cerca de 15 minutos de leitura. “A luz compete com o texto impresso e desvia a atenção do conteúdo lido”, afirma a oftalmologista Márcia Guimarães, do Hospital de Olhos de Belo Horizonte (MG). Para os portadores, o texto parece desfocado. “Luzes fluorescentes são desconfortáveis e geram mais irritabilidade”, completa. O distúrbio é comum: mais de 40% das crianças com dificuldade de ler têm algum grau da síndrome.
Principais sinais: lacrimejamento, prurido, ardência nos olhos, tendência a esfregar os olhos ou tentar fazer sombra com as mãos enquanto lê, balançar ou tombar a cabeça, espaçamento irregular ao escrever, baixa compreensão do que é lido.
Tratamento: não há como corrigir o distúrbio, mas o uso de uma folha de acetato colorido sobre o texto é suficiente para aplacar o incômodo e a dificuldade em ler. Óculos com filtros escuros também funcionam.

Transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH)

Caracteriza-se pela baixa atenção, hiperatividade e impulsividade. Inicia na infância, mas pode persistir na adolescência e na vida adulta. “A genética é importante, mas fatores como uso de álcool e drogas durante a gestação influenciam”, diz a neuropsicóloga Ana Paula Macchia (SP). Um estudo publicado em 2000 pela Revista Brasileira de Psiquiatria mostra que, no Brasil, 5,8% das crianças e adolescentes têm TDAH.
Principais sinais: dificuldade de concentração, perda de objetos (material escolar, uniforme, óculos de natação); não escuta quando é interpelada; movimento excessivo de pés e mãos; incapacidade de ficar muito tempo sentada em sala de aula; dificuldade de brincar em silêncio; fala em volume alto e agressividade.
Tratamento: o diagnóstico deve ser feito por um neurologista, psiquiatra infantil ou neuropsicólogo. Em alguns casos, podem ser prescritos medicamentos. “A parte central do tratamento é psicológico, usando-se a técnica cognitivo-comportamental”, diz Ana Paula.

Discalculia, o que é isso?

Muitas crianças torcem o nariz para os números e algumas com razão. “Portadores de discalculia apresentam comprometimento na habilidade de calcular, mas também de compreender conceitos numéricos e de produzir números devido a fatores neurobiológicos”, explica a psicopedagoga Marieliz Toledo Arruda, da ABC Aprendizagem (SP). O problema associa-se a cerca de dois anos de discrepância entre a idade cronológica e o nível de aprendizagem escolar dos conteúdos aritméticos. Manifesta-se pela dificuldade em tarefas (contagem, comparação de quantidades, lentidão na execução de cálculos, decorar tabuada, gerenciar tempo e lidar com dinheiro). Não é incomum que o distúrbio esteja acompanhado de TDAH. “Raro, tem prevalência de 1% da população em idade escolar”, diz Marieliz.



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