Conhecida e muito divulgada por celebridades, como Deborah Secco e Priscila Fantin, a medicina ortomolecular parece que se popularizou e caiu de vez no gosto do brasileiro. Mas você sabe exatamente como funciona esse método para a prevenção e o tratamento de doenças? Se você se embaraçou para tentar responder essa pergunta, não se preocupe. A maior parte da população passa por apertos como esse. E isso acontece simplesmente porque, apesar de ter virado moda (você deve conhecer pelo menos um amigo ou o amigo do amigo que garante ter melhorado o aspecto da pele, o pique e o estado geral de saúde), os procedimentos que envolvem o método ainda são pouco conhecidos.
“Apesar das inúmeras pesquisas na área, ainda há muito para ser descoberto e muito para ser colocado em prática”, explica o nefrologista, infectologista e clínico-geral Paulo Olzon, chefe da disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e estudioso do assunto há 20 anos. Pior ainda é que essa falta de informações pode levar muitas pessoas a recorrerem a tratamentos que se dizem ortomolecular e nem sempre, na verdade, são.
Foi isso o que aconteceu com a jornalista Karen Silveira, 28 anos, de São Paulo. Cansada dos quilinhos extras, há dois anos ela procurou uma médica ortomolecular para emagrecer. “Eu entrei no consultório e ela me explicou rapidamente o que iríamos fazer. Pediu um exame de sangue e só”, conta. Karen precisou seguir uma dieta restritiva, tomar um medicamento manipulado — sem saber o que tinha dentro — e um pó que a médica explicou tratar-se de um suplemento vitamínico. “Eu emagreci oito quilos em um mês. Mas não achei que aquele era um tratamento legal. Fiquei com a impressão de que só fazendo a dieta já emagreceria.
Não precisava de cápsulas ou pó”, desabafa. Irritada com a falta de carboidratos na sua alimentação, Karen abandonou o tratamento no segundo mês e, aos poucos, foi ganhando os quilos novamente. “Fiquei com uma má impressão da terapia ortomolecular, acho que a médica nem era especializada na área”, afirma.
Essa impressão de que nem todos os médicos são realmente especialistas em medicina ortomolecular é comum e acontece por vários motivos. A principal razão é a falta de regulamentação do setor. O tratamento ainda não é reconhecido como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). “Assim, falta uma legislação específica e um controle maior sobre esses profissionais”, acredita o clínico-geral Aldo João Deucher, membro da Sociedade Brasileira de Medicina Ortomolecular (Sobramo), de São Paulo. A falta de obrigatoriedade de formação específica também prejudica a classe médica. Por isso, o médico Paulo Olzon pretende fundar em breve a Associação Brasileira de Doenças Oxidativas. A idéia é lutar pela regulamentação da terapia e capacitar profissionais para trabalhar na área.
Radicais livres e nutrientes Especialistas garantem que, quando bem aplicada, a medicina ortomolecular (ou biomolecular, como também é conhecida) pode ser uma aliada da saúde. É que essa técnica prega a diminuição dos radicais livres — substâncias tóxicas (oxidantes) que o corpo produz naturalmente ao longo da vida, mas que, em excesso, promovem o desequilíbrio químico e estão por trás do envelhecimento celular e de inúmeras doenças.
De acordo com os especialistas, faz parte da vida oxidar e antioxidar. O tempo todo o nosso corpo está produzindo radicais livres. Uma parte é usada pelo próprio corpo para se proteger de invasores que causam as infecções. Outra parte — estimase que 90% dos radicais livres — fica vagando pelo organismo, provocando a oxidação dos tecidos e modificando o núcleo das células. É como se o tecido celular enferrujasse. Segundo a americana Jean Carper, especialista em nutrição e autora de livros como Alimentos – O Melhor Remédio para a Boa Saúde (Editora Campus, 632 páginas, R$ 117) até os 50 anos, 30% da nossa proteína celular terá sido convertida em lixo oxidativo. Entre os causadores do excesso dessas moléculas estão o tabagismo, a poluição, o estresse, a alimentação inadequada, o esforço físico exagerado e até a exposição a produtos químicos. Quanto mais uma pessoa fica exposta a esses agentes, maior é a quantidade de radicais livres que ela acumula no corpo — e maiores os riscos de ficar doente.
Por outro lado, hábitos saudáveis, abandono dos vícios e uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes essenciais funcionam como agentes antioxidantes, diminuindo a quantidade de radicais livres.
No Brasil há 25 anos, o conceito de medicina ortomolecular nasceu muito antes. Em 1968, o químico norte- americano, ganhador do Prêmio Nobel por duas vezes, Linus Pauling criou a técnica, baseada na Terapia Radicais Livres e Envelhecimento, proposta por Denham Harman, famoso pesquisador norte-americano, em 1956. De lá para cá muitos estudos mostram os benefícios do tratamento ortomolecular. Existe até uma entidade, a International Society for Free Radical Research, que promove uma série de simpósios em todo o mundo a respeito do tema, com milhares de cientistas associados. Por aqui, a Sobramo é que tem a tarefa de reunir esses profissionais. São 500 cadastrados, mas certamente o número de médicos que aplicam a técnica deve ser, pelo menos, quatro vezes maior.
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