
Enquanto a seleção brasileira de futebol ou o seu time do coração luta
pela conquista de títulos, entusiasmados torcedores ficam com os nervos
em frangalhos na expectativa daquela catarse coletiva que se renova a
cada jogo vencido.
"Além de desejar a vitória em campo, os brasileiros precisam muito de
um acontecimento positivo, que os anime em momentos de descrença após
os sucessivos escândalos na esfera política e da crise na segurança pública",
analisa Raquel Rodrigues Kerbauy, psicóloga clínica e professora titular
de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Que a festa da torcida
é positiva, ninguém tem dúvida, mas é preciso ficar atento para não sucumbir
ao peso da comemoração ou da frustração, em caso de derrota. A especialista
lembra que um traço comum aos torcedores é valorizar a arte e a alegria
demonstradas em jogo, o que amplia a empolgação e a escalada emocional.
Se o resultado for favorável, o relaxamento é substancial, um gol perfeito
do ponto de vista psicoterapêutico.
As emoções, como explica a psicóloga Kátia Osternack Pinto, presidente
da Associação Brasileira de Neuropsicologia, agem sobre o organismo por
meio da liberação de substâncias benéficas ou prejudiciais. Quando se
trata de reações emocionais fortes como as que envolvem as partidas de
uma Copa do Mundo ou do campeonato brasileiro, por exemplo, homens e mulheres
vivenciam plenamente uma situação de estresse.
Esse estado de alteração orgânica não é necessariamente negativo, como
se costuma pensar. Historicamente, essa reação fisiológica remonta ao
homem das cavernas que, sob estresse, lutava para obter o seu sustento
e também para fugir dos predadores, como lembra o clínico geral Arnaldo
Lichtenstein, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
"Sob estresse, o organismo libera vários hormônios como adrenalina e
cortisol que preparam o corpo para uma luta ou fuga", explica. Com a descarga
dos hormônios na corrente sangüínea, há aumento do batimento cardíaco,
da pressão arterial e até do nível de açúcar no sangue. "Normalmente é
bom para o organismo porque ativa a estrutura muscular em resposta imediata
ao estímulo estressor", diz o médico.
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