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Edição 13 - Maio/2005
 
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  A pílula do dia seguinte
O anúncio do Ministério da Saúde de que vai ampliar a distribuição dos contraceptivos de emergência provocou uma onda de reações. Saiba tudo sobre o medicamento que está no centro dessa polêmica

POR CRISTINA NABUCO
ILUSTRAÇÕES MARCELO GARCIA


Pingos nos is
 
Certos equívocos contribuem para adicionar mais lenha a essa fogueira:
 A fecundação não acontece imediatamente depois do ato sexual. Os espermatozóides podem permanecer no aparelho genital feminino por até seis dias e se unir ao óvulo nesse meio-tempo, se o muco cervical oferecer condições adequadas para que as células sexuais masculinas subam pelo colo uterino, atravessem o útero e migrem para as trompas, onde se dá a fertilização. Caso a mulher tenha ovulado no dia da relação, o encontro de gametas pode acontecer nas próximas 24 horas.
 Calcula-se que a implantação ocorra entre o 6º e o 12º dia a contar da relação sexual, quando o óvulo fecundado, chamado pelo pomposo nome de blastocisto, perfura o endométrio, penetra nessa camada celular que recobre o útero e forma um ninho. A essa altura, a pílula do dia seguinte praticamente já não surte efeito.
 Nas manifestações contrárias ao método, a pílula do dia seguinte foi confundida com o RU-486. Trata-se, na verdade, de um medicamento distinto desenvolvido na França em 1980 e conhecido pelo seu efeito abortivo, embora em países como a China às vezes seja usado também para contracepção de emergência. O RU-486, ou mifepristone, inibe a ação da progesterona. Ingerido até sete semanas a contar do primeiro dia da última menstruação, impede a fixação e a manutenção do embrião no útero. A eficiência como abortivo sobe para 97% quando associado à prostaglandina, substância que faz o útero contrair. Adotado como alternativa ao aborto cirúrgico nos países que autorizam a interrupção da gravidez, o RU-486 está proibido no Brasil, ao contrário do contraceptivo de emergência à base de levonorgestrel.
   

O uso contínuo e seus riscos
A pílula do dia seguinte, porém, não será distribuída livremente como a camisinha. Para ter acesso a ela, a mulher deverá passar por um médico e receber orientações sobre esse procedimento e os demais. O cuidado visa impedir que seja utilizada de rotina. Uma pesquisa divulgada o ano passado pela consultoria IMS Health do Brasil constatou uma overdose no emprego do método: de janeiro a setembro de 2004 foram vendidas 3,4 milhões de unidades contra 550 mil em 2000. O medicamento tem feito sucesso sobretudo entre adolescentes que, muitas vezes, conseguem adquirilo em farmácias, sem receita.

Esse comportamento expõe as usuárias a riscos. O principal é a gravidez, já que a pílula do dia seguinte é menos eficiente que os demais contraceptivos - a pílula comum, o injetável mensal, o adesivo e o anel, por exemplo, oferecem mais de 99% de segurança. "Também não protege contra aids e outras doenças sexualmente transmissíveis - o único método mais garantido é a camisinha - e provoca náuseas em 50% das usuárias, vômitos em cerca de 20%, alterações no ciclo menstrual e, às vezes, dores de cabeça e no abdômen", relata o ginecologista Thomas Moscovitz, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo.

O contraceptivo não será distribuído livremente como a camisinha. Para ter acesso a ele, a mulher deverá passar por um médico e receber orientações sobre o método

Os efeitos colaterais são atribuídos às altas taxas hormonais: uma única pílula do dia seguinte tem quantidade de progesterona equivalente a cinco pílulas combinadas de baixa dosagem (que fornecem 0,15 mg de levonorgestrel e 30 mcg de estrogênio). Fora os desconfortos passageiros, essa carga ocasional de hormônio não traria maiores problemas. O que não se sabe é o efeito a longo prazo do uso repetido. Por isso, ela é aconselhada apenas em situações excepcionais: falha do procedimento empregado (a camisinha se rompeu ou o diafragma saiu do lugar), a mulher esqueceu de tomar as pílulas comuns ou de colocar o anel vaginal no dia certo, não usou qualquer contraceptivo ou foi vítima de violência sexual. E, claro, sempre com supervisão médica.

Como usar
 


Apesar do nome 'pílula do dia seguinte', a recomendação clássica é ingerir o primeiro comprimido da cartela até 72 horas após o sexo sem proteção e o segundo 12 horas depois do primeiro. Desde que um trabalho recente envolvendo 2.700 mulheres, patrocinado pela ONU, revelou que engolir os dois comprimidos juntos (1,5 mg de uma vez) é mais seguro e eficaz, pois afasta o perigo de esquecer a segunda dose, alguns fabricantes planejam oferecer a cartela com dose única.

Usada nas primeiras 24 horas, a possibilidade de engravidar é menor que 1%. Nas primeiras 72 horas, chega a 5% e aumenta progressivamente. Depois do quinto dia, são tantas as falhas que já não é indicada. "A eficácia é maior quanto menor for o tempo entre o coito e a tomada da primeira dose, o que torna muito difícil ou impossível sustentar que o mecanismo de ação seja posterior à fecundação", comenta o ginecologista Antônio Carlos Rodrigues da Cunha, professor da Universidade de Brasília, em um artigo publicado na revista italiana Bioetica, de Milão.

   

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