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Saiba tudo sobre a AIDS

Publicado em 01 de Dec de 2015 por Ana Carolina Gabriel | Comente!

Os avanços nos tratamentos de pacientes portadores de HIV e das pesquisas em direção à cura da doença fazem que muitas pessoas a menosprezem e deixem de lado a prevenção. Mas não é o caso. Confira!



Texto Romulo Osthuest | Foto Shutterstock



O número de camisinhas distribuídas pelo Ministério da Saúde em 2013 foi 625 milhões. Segundo o órgão, o Brasil é o campeão em campanhas desse tipo no mundo. O investimento é apenas uma das estratégias para não se perder a batalha contra o vírus HIV. Em 2012, foram registradas 39.185 pessoas infectadas,correspondendo a 20,2 casos para cada 100 mil habitantes, número que se mantém estável nos últimos cinco anos. A estimativa é a de que 718 mil indivíduos vivam com a doença em todo o território nacional.

Com base nesse panorama, uma pergunta é necessária: se 80% dos casos de infecção têm origem em relações sexuais, por que, então, a população não se conscientiza de uma vez de que a prevenção é fundamental? “Uma razão é saber que há tratamento eficaz. Não se tem mais medo da síndrome. As pessoas baixaram a guarda e não estão se prevenindo”,responde Fernando Ferry, médico especialista em HIV/AIDS, professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UNIRIO) e do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (RJ) – centro de referência no assunto. Com medo de obter o diagnóstico positivo, a maioria acaba descobrindo a doença já nos leitos. “Elas estão morrendo no hospital e isso não aparece na mídia. Os óbitos estão diluídos. Por ano, morrem cerca de 12 mil pessoas”, ressalta o médico.


Efeito salva-vidas
Por outro lado, salvar vidas é um dos melhores resultados da ampliação do tratamento e das campanhas de testagem. No País, as mortes por HIV diminuíram de 17 mil em 1996 para 10 mil em 2013. Entre 2000 e 2013, essas mortes caíram mais rapidamente que a mé-dia global por ano, que é de 1,5%. Quaisquer pessoas HIV positivas podem se submeter ao tratamento disponibilizado pelo governo federal, independentemente se seu sistema imunológico está ou não comprometido.A ideia é que esse protocolo, iniciado em dezembro de 2013, faça que mais pessoas possam aderir ao tratamento: uma pílula contendo três fármacos distintas (tenofovir,lamivudina e efavirenz) que o indivíduo deve tomar uma vez ao dia antes de dormir. Por ela reduzir a carga viral do soro positivo, o risco de transmissão chega a ser 96% menor– o que favorecerá o controle da pandemia.“A pílula única é potente e apresenta baixa quantidade de efeitos colaterais, fazendo que o tratamento seja otimizado e fácil. O paciente não vai morrer de AIDS, mas de qualquer outra coisa”, pontua o pesquisador, que concedeu a entrevista a seguir à VivaSaúde.

O tratamento com a pílula única traz uma boa qualidade de vida?
Isso é relativo. Há a questão dos efeitos colaterais (ainda que diminuídos), a necessidade de sempre se fazerem exames,além das implicações psicológicas em relaçãoà própria infecção. Mas, com o tratamento,você transforma a condição em doença crônica e as pessoas passam a lidar com ela como se tivessem diabetes, por exemplo. Por outro lado, essa noção faz que elas não se protejam, principalmente homens homossexuais jovens, por não encontrarems uporte em suas famílias quanto à aceitação de sua orientação e perderem a chance de conversar. Assim, o sexo é tratado como tabu e assunto proibido. O resultado é a falta de informação do jovem, que acaba não se protegendo adequadamente.


Por que os jovens ainda estão muito expostos?
Cada vez mais, vê-se a sexualidade aflorando na população de forma mais precoce e menos protegida, fazendo que ela relaxe quanto à prevenção. O que é mais preocupante é o crescimento da infecção entre os 13 a 25 anos. São dois fatores que os levam a isso: falta de educação sexual e busca pelo prazer imediato, inconsequente, sem preservativos – muitas vezes, associada ao consumo de drogas e álcool. Fora isso, não existe a procura por saber sobre si próprios,evitando-se os exames. Temos visto meninos de 20 anos de idade chegando ao hospital em estágio avançadíssimo da doença e que,possivelmente, se contaminaram aos 13.

Então, educação sexual é urgente?
Educação sexual na escola seria essencial, com programas de capacitação de professores de acordo com a realidade local, envolvendo não somente as crianças, mas também as famílias nesse assunto. É promover um aprendizado técnico para todo mundo, permitindo que se entenda que há outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), sendo necessário se proteger delas da mesma maneira.

Sem isso, como proteger-se?
O indivíduo tem direito a se comportar sexualmente da forma como quiser; não devemos discriminar ninguém. Se achar que pode sair com várias pessoas, é uma decisão dele. Isso não tem nada a ver com o contágio da doença. Caso a pessoa se proteja, ela não se contaminará. Não se precaver e ter um grande número de parceiros leva ao contágio.


Quais são os estigmas comuns?
A primeira coisa é o medo de revelar paraa família. Depois, eles têm a ideia de que morrerão por um resfriado comum. Em terceiro lugar, a culpa de terem tido consciência da existência da doença e de que vacilaram na hora da proteção, sofrendo muito com isso. Outra questão é em relação a futuros parceiros, perguntando-se como conseguir estabelecer relações afetivas com outras pessoas daquele momento em diante.

Mas dá para se relacionar?
O uso da camisinha é fundamental. Isso não somente em relação a ele transmitir o HIV para alguém, mas a ele se contaminar com outras DSTs. Quando o soro positivo toma remédio, sua carga viral fica muito baixa, o que diminui ainda mais as chances de ele transmitir o vírus – estudos mostram que a possibilidade de infectar outra pessoa cai para 4%. Mas nada é garantido. Por isso,o paciente soro positivo que sabe de sua condição tem de informar ao parceiro sobre o assunto e permitir a ele tomar a decisão a respeito do que fará. A maioria aceita continuar o relacionamento quando gosta do outro. E se protege sempre.

A cura bate à porta?
Já existe um paciente curado no mundo. Seu nome é Timothy Brown, conhecido como o “paciente de Berlim”. Ele já era soro positivo quando desenvolveu uma leucemia. Precisava fazer um transplante de medula e conseguiram a de um doador resistente ao HIV. Ao receber essa medula nova, ficou curado. Isso abriu perspectivas para novas abordagens e muitas pesquisas estão em curso. Porém, novas tentativas de repetir esse feito falharam! A cura virá porque a capacidade do ser humano de estudar e de gerar conhecimento está muito avançada. Os estudos científicos estão no campo da descrição dos mecanismos das moléculas, dos bloqueios para que percam suas funções. Essa será a tônica da medicina no futuro. A cura do ebola, por exemplo, está na biologia molecular avançada. A gente espera que isso aconteça com o HIV/AIDS também; sou muito esperançoso. Talvez, a cura demore de 15 a 20 anos para acontecer.


Quem está à frente nesse setor?
O País mais desenvolvido nesse sentido é os EUA. As universidades de lá premiam a competência de seus pesquisadores, e eles trabalham associados à indústria. Esses trabalhos aos quais se dedicam com muito fervor representam bilhões de dólares. 

Fernando Ferry, médico especialista

em HIV/AIDS

Fernando Ferry, médico especialista em HIV/AIDS, coordenador do Programa de Mestrado em Infecção HIV/AIDS e Hepatites Virais, docente e pesquisador da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro(UNIRIO) e do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (Rio de Janeiro. 

FONTES: Boletim epidemiológico HIV/AIDS 2013 – Ministério da Saúde; Organização Mundial da Saúde (OMS); Periódico The Lancet (INGLATERRA). 

 

Revista VivaSaúde | Ed. 140

 

 

 

 

 



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