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Placebos: reação genética

Publicado em 28 de Oct de 2015 por Marília Alencar | Comente!

Pesquisa indica que este efeito sofre influência do perfilgenético de cada um e pode representar mudanças emestudos clínicos e na prescrição de medicamentos



Texto Leonardo Lourenço / Foto: Reprodução 

Placebo

(Foto: Reprodução)

Uma descoberta recente realizada por pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard e do Beth Israel Deaconess Medical Center de Boston (Estados Unidos) abre novas possibilidades para a pesquisa médica e o desenvolvimento de novos medicamentos. A pesquisa apontou que algumas pessoas apresentam características genéticas que alteram a resposta a placebos, substâncias inertesusadas em grupos de controle. A investigação foi publicada na revista científica Cell Press e se baseia na revisão de estudos anteriores relacionados à utilização das pílulas sem um princípio ativo. O artigo afirma que o efeito placebo em alguns indivíduos pode ser influenciado pela forma como moléculas reagem à dor, por exemplo. Ele lista a resposta a drogas derivadas do ópio e outras relacionadas ao humor, como a serotonina e a dopamina. “Nossa descoberta aponta que existe uma assinatura genética para a resposta ao placebo, mas o estudo ainda é preliminar”, admitiu à agência de notícias Reuters a pesquisadora Kathryn Hall, líder do grupo.“Algo está lá, certamente, mas é preciso saber mais”, completou.

Respostas positivas

Ainda assim, já é possível prever as mudanças que essa característica pode ocasionar à indústria médica. Desde a escolha de pacientes para a pesquisa de novas substâncias até a prescrição de remédios pode ser influenciada por esse perfil genético. “Utilizando o conhecimento prévio da associação entre vias de neurotransmissores e efeito placebo, os pesquisadores observaram que mutações em genes que codificam proteínas nessas vias podem modificar a reação. Dessa maneira, um conjunto de variações genéticas pode estar associado à predisposição de um indivíduo responder positivamente a um tratamento inócuo”, explica o professor Benilton Carvalho, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Novos caminhos

“Esta é uma questão que exige outras averiguações. Entretanto, ela já traz questões práticas de grande relevância. Atualmente, ensaios clínicos tratam o grupo placebo como uma referência adequada de ausência de tratamento. Mas se o efeito placebo de fato depender do perfil genômico do indivíduo, então um novo grupo de referência deverá ser determinado. Dessa maneira, um indivíduo do grupo controle que não recebeu nenhuma forma de tratamento torna-se um candidato-padrão para referência a ser incluído em um ensaio clínico”, afirma o pesquisador brasileiro. Segundo Carvalho, outra possibilidade dessa associação entre perfil genético e a resposta de um paciente ao placebo é a de individualizar a dosagem de medicamentos. Teoricamente, uma pessoa que apresenta reação positiva a uma substância sem atividade necessitaria de doses menores para o tratamento de suas doenças. “Isso abre novos caminhos para a medicina personalizada”, diz o professor.

Este efeito é real?

Toda intervenção da qual sabe-se que não há efeitos terapêuticos sobre uma doença ou sintoma é chamada de placebo. Ele não necessariamente é uma pílula, mas pode ser um dispositivo que, na verdade, esteja desligado, ou mesmo uma cirurgia simulada. Seu uso mais conhecido é no desenvolvimento de novos tratamentos: divide-se o grupo de pesquisa em dois, um deles recebe o placebo, o outro, a terapia sob estudo. “Se a proporção de melhora em ambos os grupos for equivalente, então não é possível atestar a eficácia da medicação proposta. Se quem tomou o remédio melhorou mais do que aqueles que tomaram a pílula com açúcar, então o medicamento funciona”, resume o pesquisador Carvalho. Dessa forma, essas substâncias inertes permitem que seja avaliada a eficácia de um produto. Há, porém, o chamado “efeito placebo”, quando um paciente recebe a substância sem princípio ativo e, mesmo assim, apresenta melhora em sua condição.

Expectativas do paciente

Essa resposta ainda é alvo de uma série de estudos que buscam explicar de forma mais assertiva como ela funciona. Uma das teorias mais aceitas na comunidade científica, de acordo com Carvalho, é a que liga o efeito placebo às expectativas do paciente. “Sob esse ponto de vista, se a pessoa acreditar na eficácia do comprimido, então é possível que a bioquímica do corpo do próprio indivíduo atue de forma a causar efeitos similares àqueles da medicação”, afirma o professor da Unicamp. “Nos últimos anos, com o uso de equipamentos de última geração, observou-se que essa ação acontece por meio da ativação devias de neurotransmissores, que antes encontravam-se inativadas”, completa ele, que cita um estudo que avaliou a eficácia de uma terapia em que se observou que a eficiência do placebo, rotulado como medicamento, era semelhante à do remédio, rotulado como placebo.

Revista VivaSaúde/ Edição 149



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