Super Banner

O que o sangue revela sobre sua saúde

Publicado em 05 de Dec de 2013 por Leticia Maciel | Comente!

O futuro da medicina promete: em poucos anos, doenças como câncer, Alzheimer e até tendências suicidas poderão ser detectadas por meio de análises envolvendo a substância



Texto: André Bernardo,  Diego Benine/ Foto: Shutterstock/ Adaptação: Letícia Maciel 

Os avanços mais promissores se concentram na área da genética e das células-tronco
Foto: Shutterstock 

Você já imaginou, um dia, fazer um exame de sangue para descobrir se pode desenvolver a doença de Alzheimer? Ou, então, para detectar, o mais precocemente possível, o surgimento de um câncer? Ou, quem sabe ainda, para ajudar no diagnóstico de patologias do coração? Pode até parecer argumento de filme de ficção científica, mas, a julgar por estudos recentes publicados em periódicos médicos estrangeiros, o futuro da medicina pode estar em duas ou três gotas do fluído vital.

Em prol da luta conta o câncer

“Os avanços mais promissores se concentram na área da genética e das células-tronco. Testes genéticos e moleculares são capazes de identificar precocemente alterações que indicam tendências ao desenvolvimento de alguns tipos de doença”, analisa Vera Marra, hematologista do Instituto Estadual de Hematologia Arthur de Siqueira Cavalcanti (Hemorio). “Não há dúvidas de que os exames que envolvem material genético, como o DNA e o RNA, representam um campo de grandes avanços, tanto na área forense quanto na de diagnóstico”, completa. Um exemplo notável é o método de análise desenvolvido pelo instituto sul-coreano Genomictree Inc, o qual pode detectar o câncer colorretal (tipo bastante incidente no Brasil) com uma precisão de 87% a partir de amostras de sangue. Essa substância seria capaz de revelar alterações no SDC2, que é o gene associado à proliferação da doença. Embora outras pesquisas sejam necessárias para legitimar o processo como método diagnóstico, as descobertas foram animadoras, já que o teste, se aprovado e amadurecido, será uma alternativa aos temidos e incômodos exames de colonoscopia. Outro exemplo são os estudos coordenados pelo médico Bert Vogelstein, da Universidade Johns Hopkins (EUA). Segundo ele, num futuro próximo, o exame estará disponível comercialmente e será capaz de dizer se o tumor de um paciente avançou ou regrediu após o tratamento. Com isso, a medicina poderá oferecer tratamentos, digamos, mais personalizados. “Uma das áreas que mais se desenvolveu nos últimos anos é aquela ligada à resposta terapêutica aos medicamentos. No tratamento de alguns cânceres, a resposta a determinadas terapias é melhor em alguns casos do que em  outros. Essa é a chamada ‘medicina personalizada’, em que o tipo e a dose do remédio podem ser adequados ao perfil de cada paciente”, analisa Hélio Magarinos Filho, diretor do Laboratório Richet (RJ).

Investigação genética

As novidades não param por aí. Estudos para lá de promissores incluem doenças neurológicas, como o Alzheimer e o infarto agudo do miocárdio. No tocante à primeira, um experimento realizado pela Universidade de Saarland (Alemanha) utilizou fragmentos de material genético que flutuavam no sangue (microRNAs) para detectar a doença. Após compararem amostras de indivíduos saudáveis com as de portadores, os cientistas descobriram que os níveis de 12 microRNAs eram muito diferentes nos dois grupos, o que futuramente — sim, ainda serão necessários anos de pesquisa para checar a validade do exame — pode servir de base para o desenvolvimento de formas de prevenção.

Reforço para o coração

Em relação às doenças cardíacas, a expectativa do médico Christopher DeFilippi, da Escola de Medicina da Universidade de Maryland (EUA) está sobre uma avaliação que mede no sangue o nível de troponina- -T, um marcador do processo biológico de morte celular. É possível que a técnica seja o caminho mais seguro para prever o ataque cardíaco. De acordo com artigo publicado no The Journal of the American Medical Association (Jama), ela pode ajudar a avaliar o risco de morte por infarto agudo do miocárdio entre indivíduos com mais de 65 anos que não apresentam sintomas de doenças cardíacas. Alguns pesquisadores acreditam que até o risco de suicídio poderá ser previsto. O médico Alexander Niculescu é um deles. Junto com uma equipe de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana (Estados Unidos), ele comparou amostras de pacientes de transtorno bipolar, os quais nutriam pensamentos suicidas, com as de voluntários sem histórico de doenças mentais. Ao final do procedimento, observou que os primeiros traziam determinados marcadores de RNA no sangue. Posteriormente, descobriu-se que indivíduos que cometeram suicídio também apresentavam tais biomarcadores. Se os resultados dessas e de outras pesquisas se confirmarem, os quadros clínicos citados ampliarão a já extensa relação de condições que podem ser diagnosticadas por um exame de sangue. Bem, diagnosticadas, não; detectadas, pondera Cármino Antônio de Souza, hematologista da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH). “O teste é fundamental para detectar um número enorme de doenças. Por isso mesmo, é o exame laboratorial mais requisitado por médicos de todo o planeta. Agora, para diagnosticar uma doença você precisa complementá-lo.”

O mapa da mina

Como o sangue é constituído de centenas de substâncias, que incluem nutrientes, aminoácidos, hormônios e enzimas, só para citar algumas, sua avaliação é considerada um valioso instrumento de diagnóstico. Só para ter uma ideia, ele pode “denunciar”, entre outras, a presença de disfunções hormonais, doenças infecciosas e imunológicas. “Trata- -se do líquido corporal responsável pela circulação de todas as substâncias. Ou seja, tudo o que acontece de normal ou anormal é refletido nele”, explica Magarinos Filho. Atualmente, uma análise desse fluído é capaz de detectar hepatite, dengue, leucemia e até tuberculose. “Há pouco tempo atrás, muitas doenças infecciosas tinham o seu diagnóstico laboratorial baseado na pesquisa de anticorpos, que é a resposta do organismo à presença de micro-organismos. Atualmente, podemos detectar a presença do material genético desses micro-organismos diretamente no sangue. Normalmente, o teste de cultura, para detectar casos suspeitos de tuberculose, pode levar até 45 dias. Com o exame genético, esse resultado pode ser obtido em algumas horas”, exemplifica o patologista.

Revista VivaSaúde Edição 127



COMENTE!