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Artrite também é assunto de criança

Publicado em 13 de Oct de 2017 por Kelly Miyazato | Comente!

Quedas constantes e inchaço nas articulações estão entre os sintomas da artrite reumatoide juvenil, que atinge jovens abaixo dos 16 anos de idade. Saiba mais!



 

Os quadros de artrite variam de criança para criança. Algumas têm crises frequentes,
outras não. E elas podem causar febre, erupções na pele e dor

Crianças que apresentam quedas frequentes ou começaram, repentinamente, a andar e a praticar atividades cotidianas com dificuldades merecem uma atenção especial dos pais. Esses são alguns dos sinais da artrite — enfermidade que ataca as articulações entre os ossos. Apesar de muita gente pensar que a artrite é assunto exclusivo de adultos e idosos, o problema também pode bater à porta a qualquer momento da infância ou da adolescência.

“A artrite não é um diagnóstico, mas um sintoma. Chamamos de artrite a inflamação das articulações de qualquer área do corpo”, resume Cláudia Goldenstein Schainberg, reumatologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

As causas da artrite na infância são diversas, abrangendo de infecções a tumores e problemas autoimunes. Na artrite, as juntas podem ficar inchadas, avermelhadas e quentes. A dor, entretanto, nem sempre é um sintoma presente — o que dificulta a identificação da vilã pelos pais. “Por esse motivo, os pais precisam ficar atento às quedas. O alerta pode estar ai”, justifica Cláudia.

  • Sistema desregulado

A artrite que dura apenas seis semanas, responde bem ao tratamento medicamentoso ou, às vezes, regride sozinha é classificada como aguda. Traumas e infecções por vírus e bactérias são algumas das diversas causas que podem levar à artrite aguda. Já quando o problema ultrapassa esse período, ele passa a ser considerado crônico.

Entre os diversos tipos de artrite crônica, a mais comum em crianças é a artrite reumatoide juvenil (ARJ) — também batizada de artrite idiopática juvenil. Geralmente, esse tipo de artrite tem origem autoimune — ou seja, sistema imunológico desregulado ataca as articulações como se houvesse uma invasão.

“Doenças autoimunes são multifatoriais. Elas podem ter origem genética e serem ativadas por algum fator ambiental desconhecido”, resume Clovis Artur Silva, médico responsável pela Unidade de Reumatologia do Instituto da Criança (Hospital das Clínicas, FMUSP). O número de articulações atingidas pela enfermidade também ajuda a fechar o prognóstico da doença. Em linhas gerais, a artrite pode atingir quatro ou mais articulações (tipo poliarticular) ou menos de quatro articulações (pauciarticular), dizem os especialistas.

É importante saber que o desenvolvimento da ARJ é mais comum antes dos 16 anos de idade, com picos de incidência entre 1 e 5 anos e dos 10 aos 14 anos de idade.

  • Tempos de crise

O quadro de ARJ varia de criança para criança. Algumas apresentam crises frequentes, outras não. As crises de ARJ podem vir acompanhadas de febre, erupções na pele e dor — o que atrapalha o sono dos pequenos e provoca cansaço ao longo do dia. O apetite também pode sofrer baques quando a crise de artrite dá as caras, acarretando em perda de peso.

Além das juntas, a ARJ também pode atingir em cheio outras regiões do corpo. A lista é grande e inclui coração, olhos, músculos, tendões, fígado e pele.

Mas como saber se é realmente a artrite que está na jogada? Nesse caso, o diagnóstico é o do tipo clínico — baseado nos sintomas e no histórico da criança. “Os exames ajudam mais a descartar outras possíveis doenças. O de raios X, por exemplo, nem sempre é eficiente. A artrite só provoca manifestações visíveis nesse exame a partir do segundo ano da doença”, aponta Cláudia.

Os exames laboratoriais mais comuns e que visam excluir outras enfermidades são a velocidade de hemossedimentação (VHS), teste para detecção de anticorpos antinucleares (FAN), teste para detecção do fator reumatoide (FR), tipagem HLA-B27, contagem da hemoglobina e análise da urina. O exame de raios X, por sua vez, ajuda a descartar tumores e fraturas. Já exames de líquidos nas articulações ajudam a atestar a inflamação. “Os líquidos apresentam altos índices de citocinas, substâncias que mostram que a área está inflamada”, diz Silva.

 

É preciso ajudar a criança a aderir ao tratamento
contra artrite. Esse pode ser um desafio. Em
alguns casos, é necessário que os pais
recebam suporte para lidar
com a enfermidade

  • Tratando os sintomas

Os sintomas são o alvo do tratamento contra a artrite. “Em linhas gerais, a administração de anti-inflamatórios ajuda a conter a dor. Já imunossupressores podem ser úteis para regular a imunidade hiperativa”, aponta Cláudia.

Os efeitos colaterais da medicação, claro, existem. Contudo, segundo Silva, os benefícios ainda são maiores. “No caso dos imunossupressores, as defesas do organismo podem ficar enfraquecidas. O corpo fica mais vulnerável a infecções. Já os anti-inflamatórios raramente provocam problemas. O mais comum são problemas gástricos. Raramente há complicações hepáticas e renais”, conforta.

Recentemente, os reumatologistas também têm recebido boas notícias em relação às pesquisas com terapias biológicas — classe de medicamentos elaborados a partir de proteínas sintéticas. Essas prometem dar um tom no tratamento de doenças reumatológicas em crianças no futuro.

  • Esporte no receituário médico

A longo prazo, a artrite crônica não tratada pode provocar danos na articulação e limitar a mobilidade. Nesse caso, escrever e até abrir garrafas pode ser um desafio e tanto. A enfermidade também pode levar a outras complicações, fazendo com que a criança deixe de usar um membro do corpo, como um braço ou uma perna.

Contudo, a realidade mostra que a artrite diagnosticada e tratada precocemente ajuda a criança a preservar sua qualidade de vida. “A criança e o adolescente podem ter uma vida normal e continuar levando seus sonhos e projetos. A doença não deve ser um limitante”, reforça Silva.

  • Esporte na receita

Para fortalecer os músculos e as articulações, a fisioterapia é mais do que indicada — tanto na artrite aguda quanto na crônica. “Sessões de fisioterapia ajudam a minimizar a dor na artrite aguda. Já na artrite crônica, elas previnem deformidade. Todos os pacientes devem fazer”, diz Silva.

O esporte também entra na lista de tratamento. Quando a criança apresenta menos dores, ela já deve começar a praticar alguma atividade física. “A natação, por ser de baixo impacto, é uma ótima pedida para crianças com menos de dez anos. Mas outros exercícios podem ser praticados quando a doença já está controlada ou em remissão”, garante o reumatologista.

Em alguns casos, é necessário que a criança e os pais recebam um suporte emocional do médico ou um acompanhamento psicoterápico para aprender a lidar com a doença. “É preciso ajudar a criança a aderir ao tratamento. Esse pode ser um desafio”, revela Silva. A alimentação também não deve sofrer mudanças. “É fundamental uma dieta equilibrada, mas não há restrições especiais. A alimentação deve ser a mesma realizada pela família”, desmistifica.

  • Riscos genéticos e epigenéticos

Um estudo da Universidade de Buffalo (Estados Unidos) revelou que o risco genético para a ARJ também reside em partes não codificantes do genoma (chamadas de “DNA lixo”), e não nos próprios genes. O autor da pesquisa, James N. Jarvis, observou pacientes e seus glóbulos brancos, estes responsáveis por capturar vírus e bactérias. Estas são as células mais abundantes nas articulações inflamadas de crianças com ARJ. Assim a doença está relacionada ao sistema imunológico inato, aquele que opera quase que imediatamente quando uma pessoa sofre uma lesão. É o sistema imune inato que faz que a vermelhidão e o inchaço em torno de um corte ou uma contusão ocorram, por exemplo.

  • Os tipos de artrite mais comuns na infância

- ARJ de início sistêmico
Tipo de ARJ rara, ela também afeta os órgãos internos. Seus sintomas incluem febre alta, erupções na pele, inflamação no coração e pulmões. Gânglios, fígado e baço também podem aumentar de tamanho.

- Espondiloartropatia juvenil
As espondiloartropatias são um grupo de doenças que atingem a coluna vertebral e quadril. Geralmente, estão associadas à doença inflamatória intestinal. O diagnóstico inclui um exame de sangue para a detecção da proteína HLA-B27.

- Artrite psoriática juvenil
É o tipo que ocorre junto à psoríase da pele. A psoríase é uma doença autoimune caracterizada pela erupção de placas na pele. Aproximadamente 90% dos pacientes com psoríase não desenvolvem doença articular. A exceção fica por conta daqueles que apresentam deformidades nas unhas, que possuem maior tendência ao problema.

 

*Por Leonardo Valle | Fotos Shutterstock | Consultoria Cartilha “Artrite Psoriásica”, da Sociedade Brasileira de Reumatologia | Acredite – Amigos da Criança com Reumatismo | Adaptação Kelly Miyazzato.

 

Revista VivaSaúde | Ed. 161

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