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Edição 7 - Novembro/2004
 
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  Gente que deu a volta por cima

DEPOIMENTO A DANIELA TALAMONI

"Consegui me curar da afasia"

Após traumatismo craniano, o ator Nicholas Wahba, 32 anos, não podia pronunciar uma só palavra. Hoje, ele é porta-voz de um grupo de afásicos que faz teatro para se recuperar

FOTO: FERNANDO GARDINALE
"Do acidente que sofri há 16 anos, dos 12 dias em coma e mais 2 meses internado no hospital, só me lembro do que me contam: estava no 2º colegial e depois do treino de basquete resolvi pegar uma carona com um colega mais velho, de 18 anos. Éramos quatro no carro, e o motorista decidiu participar de 'um racha', mesmo sob protesto geral. Para ultrapassar um carro, ele invadiu a pista contrária e não conseguiu evitar o choque com o ônibus que vinha em nossa direção. Por milagre, ninguém morreu e todos tiveram ferimentos leves, menos eu. Coloquei um pino no braço esquerdo, passei por uma traqueostomia (abertura da traquéia) para poder respirar. Fui, também, submetido a cirurgia plástica no rosto e a uma operação no cérebro para retirada de um coágulo. Além das cicatrizes físicas e emocionais, fiquei com graves seqüelas. Quando recebi alta, tinha dificuldades para caminhar e, pior, não era capaz de pronunciar uma só palavra, completar um raciocínio ou sequer entender o que as pessoas diziam. Estava afásico - justo eu, que fazia teatro no colégio e pretendia ser ator. Os médicos não garantiram uma recuperação total, e nem pude expressar minha tristeza por isso.

O show deve continuar
Com a ajuda da família, dos amigos e das sessões de fisioterapia e fonoaudiologia, pronunciei a primeira palavra ('lama') após três meses e retomei o treino de basquete no ano seguinte. Mas queria mesmo era voltar a estudar e a pisar no palco. Percebendo essa angústia, minha mãe, que é psicóloga, começou a pesquisar e a criar exercícios e jogos que pudessem estimular minha capacidade de compreensão e raciocínio. O esforço dela foi fundamental para me ajudar a terminar os estudos e até rendeu um livro. Mesmo falando como um bêbado, ingressei em grupos teatrais, e as falas dos meus personagens foram aumentando à medida que melhorava. Hoje, totalmente recuperado, sou assistente de direção e atuo no grupo Ser em Cena, cujo elenco é formado apenas por pacientes afásicos. Em outubro, numa iniciativa inédita no país, nós conseguimos apresentar a peça Reconstruindo a Palavra no teatro Bibi Ferreira, em São Paulo. Mais um desafio vencido! E que venham outros...”

DEPOIMENTO A DANIELA TALAMONI

ENTENDA BEM
 
A afasia é uma incapacidade de comunicação causada por uma lesão no hemisfério esquerdo do cérebro, onde estão as estruturas responsáveis pela linguagem. "O problema não se caracteriza apenas pela dificuldade em pronunciar as palavras, mas por alterações que afetam a compreensão e a interpretação do que se lê e ouve, bem como a expressão verbal", explica a fonoaudióloga Fernanda Papaterra Limongi, diretora do grupo teatral Ser em Cena e que há 30 anos atende pacientes afásicos. É mais ou menos como se alguém estivesse num país estrangeiro, sem dominar o idioma local. O tratamento básico inclui fonoaudiologia e fisioterapia. Já a recuperação depende do esforço do paciente e do tipo de dano causado. Traumatismos cranianos e derrames são os principais causadores da afasia, mas ela também ocorre por acidente com arma de fogo e até tumores.
   


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