Um estudo feito com ratos, na Universidade Hebraica, de Jerusalém, acompanhou como os animais reagiam à dor causada por traumas. Parte deles demonstrava senti-la com mais intensidade, esfregando o local afetado, enquanto outros apresentavam uma reação mais tranqüila. Logo depois, foram analisados os filhotes desse segundo grupo, que, quando submetidos à sensação de dor, se comportavam de forma semelhante à dos pais.
Em outro experimento, o neurologista Mitchell B. Max, da Universidade de Pittsburgh, nos EUA, observou durante dois anos um grupo de pacientes submetidos a uma cirurgia de coluna para aliviar dores causadas por hérnias de disco. Após o procedimento, eles respondiam a um questionário sobre o nível de desconforto, a cada três meses. Em paralelo, o pesquisador seqüenciou três genes associados aos mecanismos da dor. Desses três, foi identificado que um deles — o GCH1 — possui estreito elo com essa sensação. Assim, os portadores de duas cópias desse gene (possivelmente herdados do pai e da mãe) sentiam a dor com menos intensidade; já os que possuíam apenas uma cópia apresentavam-na de maneira moderada e os que não contavam com nenhuma cópia eram os mais sensíveis.
Esses dois estudos levantam uma mesma questão: a resposta para a intensidade com que a dor é sentida estaria na genética? “Sim, é a genética, o condicionamento e a intensidade do traumatismo. A soma de todos esses fatores, juntamente com a predisposição — que também está ligada à genética —, determina por que as pessoas sentem dores em diferentes intensidades. Da mesma forma que há pacientes predispostos a ter diabetes, há aqueles com predisposição a ter mais ou menos dor”, exemplifica o neurologista Manoel Jacobsen Teixeira, responsável pelo Ambulatório de Dor do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e coordenador do Núcleo Avançado da Dor e Distúrbios do Movimento do Hospital Sírio-Libanês.
“A dor é muito individual. Essa é uma questão determinada não só pela genética, mas depende da educação, da cultura — que são muito importantes para distinguir um tipo de paciente de outro em relação a um mesmo fenômeno —, e assim por diante”, acredita Cláudio Corrêa, neurologista e coordenador do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital Nove de Julho. “Já foram identificados alguns genes, como os c-fos, que estão relacionados à dor. As pesquisas nessa área ainda são incipientes, mas não existe dúvida de que a carga genética de cada indivíduo influencia em como ele reagirá à dor”, completa Onofre Alves Neto, presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED).
Diferença entre sexos
Para detectar qual a intensidade da dor, os médicos utilizam uma escala numérica, em que o paciente deve classificar a sensação entre 0 e 10 — considerando que 0 é a ausência de dor e 10, a de intensidade insuportável. “Tem pessoas que classificam a dor como nota 7, que é uma nota alta, e mesmo assim continuam vivendo socialmente bem, realizando suas atividades normalmente. Porém, outras com dor de menos intensidade faltam ao trabalho e deixam de seguir sua rotina”, explica Corrêa.
E, nessa escala, quem indica os níveis maiores de dor, o homem ou a mulher? Para Jacobsen, “a mulher expressa mais o que sente do que os homens, por uma questão cultural”. Corrêa concorda e completa: “A mulher é mais espontânea para procurar recursos quando sente dor e o faz mais rapidamente do que o homem”. Outro fator que interfere nessa diferença é que as doenças que costumam causar sensações doloridas acometem mais o sexo feminino. “Não é que as mulheres sentem mais dor, mas elas sofrem mais de dor. Algumas doenças como a fi bromialgia, por exemplo, acometem quatro vezes mais mulheres do que homens. Além disso, tem dores que só elas sentem, como cólica menstrual, parto e metrorragia (sangramento do útero)”, analisa Alves Neto.
Para aquela idéia de que os orientais suportam mais a dor, também vale a questão cultural. “Enquanto o sul-americano expressa ao médico sua dor com vários adjetivos, os orientais fi cam mais quietos. A diferença está no comportamento”, esclarece Corrêa.
"DA MESMA FORMA QUE HÁ PACIENTES PREDISPOSTOS A TER DIABETES, HÁ AQUELES COM PREDISPOSIÇÃO A TER UM MAIOR DESCONFORTO"
MANOEL JACOBSEN TEIXEIRA, NEUROLOGISTA
A criação dos pais e a maneira como eles ensinam seus fi lhos a lidar com a dor determinam como o indivíduo reagirá na idade adulta, independentemente de gênero. “Se você passou a vida toda lidando com a dor como uma coisa natural, o dia em que tiver um desconforto essa sensação será interpretada como algo natural. Mas, aquela pessoa que, desde a tenra idade, quando sentia dor, a mãe protegia, será exagerada no modo de expressar seus sentimentos de dor”, alerta Jacobsen.
Dois tipos, uma sensação
De maneira geral, a dor pode ser classifi cada em aguda ou crônica. A primeira tem duração curta, geralmente menos de um mês. “Se for uma dor relacionada a algum ferimento, por exemplo, você tem uma dor aguda, que persiste até que a cicatrização se estruture inicialmente, em torno de duas a três semanas”, exemplifi ca Jacobsen.
Já a crônica é aquela que permanece por mais de três meses. “Ela se deve em grande parte a modifi cações que ocorrem no sistema nervoso central. A célula nervosa, à medida que o estímulo doloroso é persistente, sofre alterações estruturais. Isso quer dizer que, mesmo na ausência de estímulos do cérebro, a dor os gera e acaba afetando outras regiões do sistema nervoso”, complementa.