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  Além da cura
A medicina tradicional abre espaço para tratamentos complementares, que levam em conta os aspectos físicos e emocionais de cada paciente. O resultado é um enfrentamento da doença cada vez menos dolorido

POR STELLA GALVÃO

FOTOS FABIO MANGABEIRA

Quando recebeu o diagnóstico de câncer, Maria do Rosário Sampaio sentiu como se tivesse levado uma trombada violenta. "Foi muito difícil assimilar e aceitar", recorda. Foi em dezembro de 2005 que ela soube ser portadora de um câncer no intestino já em fase de metástase. Os tumores migraram para os ovários e hoje estacionaram nos pulmões. Foram três cirurgias e muitas sessões de quimioterapia que alteraram a rotina de Rosário e família (marido e duas filhas adultas). Ela dirigia uma pequena frota de microônibus escolares, hoje arrendada e administrada a distância.

Após a fase de recusa, revolta e fúria diante da doença, Rosário, 50 anos, resolveu arregaçar as mangas e abraçar a vida. Além do tratamento pesado com quimioterápicos que alvejam os tumores, Rosário alterna outras terapias: reiki (energização por meio das mãos), acupuntura, meditação e também fisioterapia para combater os efeitos da perda de sensibilidade em mãos e pés. Tudo dosado para não debilitá-la. Depois de uma dose de químio com duração de três dias, ela repousa uma semana. Nesse período, sai com a família e amigos para shows, museus, cafés.

Mudou a alimentação sob orientação de uma nutricionista. Nada de carne vermelha, farináceos, açúcar industrializado, leite e derivados. Não nega que a idéia de morte lhe ocorra às vezes, mas "em 90% do tempo meu pensamento é de vida". Participa ativamente de grupos de apoio a outros pacientes e, na aula de arteterapia, montou seu quadro "história de vida", com pessoas e coisas que falam ao coração. A gaveta cheia de lenços coloridos acompanha as duas perdas totais de cabelo. Coisas perdidas, outras conquistadas. Amigos fiéis, por exemplo. E a certeza do aconchego entre os seus. Uma extensão vital do tratamento químico e cirúrgico, indispensável mesmo.

É justamente na conjunção dos aspectos biológicos e psicológicos que atua o Saúde além da cura, programa de promoção de qualidade de vida e bem-estar lançado recentemente pelo Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para pacientes da oncologia. Foi lá que Rosário encontrou todo o leque de recursos que vem fazendo a diferença no seu caso. Seguindo uma corrente que se intensificou nos últimos quatro anos especialmente nos EUA, o programa oferece tratamentos da medicina chamada de integrativa e complementar, entre eles meditação, acupuntura, reiki e ioga. Inclui também orientação nutricional e acompanhamento psicológico, quando necessário.

Onde encontrar suporte
"O tratamento oncológico pode causar complicações agudas e persistentes. Além disso, a quimioterapia e a radioterapia podem resultar em novos tumores. Por isso, o paciente vive à sombra da possibilidade de novas doenças. É para esse paciente que o programa desenvolve um plano de acompanhamento médico baseado no risco individual de desenvolver novos tumores, problemas emocionais e nutricionais", explica Auro Del Giglio, coordenador do departamento de Oncologia do Albert Einstein. Ou seja, não se faz de conta que está tudo bem, mas se usam recursos para que a jornada seja menos dolorida e com maior perspectiva de sucesso.

"TENHO UMA COLEÇÃO DE LENÇOS QUE FORAM PRESENTES DE PESSOAS QUERIDAS. HOJE, EM 90% DO TEMPO MEU PENSAMENTO É DE VIDA"

MARIA DO ROSÁRIO, 50 ANO ANOS

A corrente integrativa quer fugir do estereótipo das chamadas "terapias alternativas", que sugerem qualquer coisa que fuja ao tratamento convencional, como diz o cirurgião Paulo de Tarso Lima, que tem especialização em Medicina Integrativa pela Universidade do Arizona. Isso significa que há respaldo acadêmico de peso. Somente nos EUA, são 41 universidades com linhas de estudo voltadas a essa nova área que enxerga o tratamento oncológico além do tripé tradicional: cirurgia, quimioterapia e radioterapia. É um modelo que também tem demonstrado eficácia para minimizar os efeitos colaterais.

Versões internacionais do programa implantado no Einstein (em inglês Survivorship Program) estão hoje presentes em grandes centros de oncologia norte-americanos como o M.D. Anderson, além de universidades como Duke University, Stanford University, Columbia University, Mayo Clinic e Harvard Medical School.

Capacidade de reagir
Há cerca de dois anos, a publicação científica British Medical Journal publicou os resultados da pesquisa realizada na Harvard Medical School em parceria com a Universidade de Heidelberg (Alemanha), relacionando perfis de personalidade ao maior risco de desenvolvimento de câncer e doenças cardiovasculares. Pessoas que lidaram melhor com a perspectiva de adoecerem e demonstraram serem menos impacientes, de acordo com os pesquisadores, tiveram risco reduzido especialmente para as doenças investigadas.

Na prática, implica o doente reunir forças e buscar meios para reagir melhor a um fato que abateria outro. Foi assim que se passou com a microbiologista Zelinda Bartolomei Nakagawa, 53 anos, que tratou um linfoma e repensou o modo como levava a vida. "Eu era séria demais, trabalhava 18 horas por dia e queria centralizar tudo." Isso ficou para trás. Zelinda, que enfrentou um tratamento pesado com associação de químio e radioterapia, não leva mais as coisas tão a sério, permite-se ter tempo para ler, sair com amigos, estar mais com a mãe e a filha e até ajudar outros pacientes em trabalho voluntário. "Pensamos que tudo vai desmoronar com a doença, mas não, a vida se ajeita e segue seu curso", diz. Esse perfil de enfrentamento da doença sem "quebrar as pernas", muito pelo contrário, é a base do conceito da resiliência ultimamente empregado na área da saúde, segundo Kátia Osternack Pinto, psicóloga da divisão de Psicologia do Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP e doutora em Neurologia.

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