Mastronardi explica que a finalidade de toda psicoterapia é induzir uma mudança que seja positiva para o indivíduo. A atmosfera criada pelo cinema, ou seja, as imagens, a trilha sonora, os diálogos e a ausência de luz, funciona como um estimulante que permite um “mergulho” na narração cinematográfica, como se a pessoa estivesse num sonho. Identificado o próprio drama na tela, este passa a ser visto com mais objetividade, impulsionando o desfazimento do nó que causava determinado sofrimento psicológico.
Não faça sozinho
Para quem deseja utilizar-se da terapia sozinho, Mastronardi afirma que ela é uma ferramenta que deve ser manejada com habilidade por um especialista, sobretudo quando o sujeito tem um problema profundo, como a depressão. Se há um tratamento em curso, a terapia pode ser sugerida como coadjuvante; caso contrário, é preciso procurar o apoio de um profissional. Isso porque a obra cinematográfica deve funcionar como um “cavalo de Tróia — veiculando, propondo e sugerindo mensagens e comportamentos alternativos aos estados patológicos”, explica.
O que se espera para o paciente é que ele experimente a chamada catarse cinematográfica, isto é, “a tomada de consciência da própria realidade psíquica, substituindo estereótipos negativos por outros positivos, exatamente como acontece na psicoterapia”. Daí a importância da condução desse processo por um especialista, argumenta Mastronardi.
Guia para as respostas
No Brasil, o psicanalista e escritor Contardo Calligaris (O conto do amor, Editora Companhia das Letras) lembra que foram seus pacientes a lhe ensinar que um filme pode “produzir mudanças cruciais na vida de um sujeito”.
Por causa dessa percepção, Calligaris passou a sugerir filmes ou a leitura de um livro em especial. Para ele, essas indicações foram a ocasião propícia para a “descoberta de novas formas de viver que, dificilmente, alguns pacientes seriam capazes de pensar que existissem”. Segundo o psicanalista, por meio de um filme ou romance, “é possível perceber que há vidas muito parecidas com as nossas e que ninguém está sozinho em seu drama pessoal. Às vezes, é a narrativa que traz soluções e direções alternativas para a repetição comportamental que comanda cada um”, esclarece.
Calligaris cita o recente filme de Carlos Alberto Riccelli, O signo da cidade, como uma excelente opção para ser vista por adolescentes. A indicação terapêutica serve para a tomada de consciência sobre a “variedade de vidas que circulam anônimas ao redor das deles, levando à descoberta de que há milhares de histórias atrás das janelas iluminadas do prédio da frente”. E conclui: “Essa experiência, muitas vezes, está fora da vivência cotidiana dos jovens (e não só deles)”.
Já que na filmtherapy o psicoterapeuta trabalha como se fosse um lanterninha, guiando os pacientes em direção a uma determinada resposta, Calligaris adverte: “Um bom lanterninha sempre anuncia que o filme acabou, e que já é hora de voltar para a rua”.
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