
Julho de 2003. O volante camaronês Marc-Vivian Foé, 28 anos, falece aos 37 minutos do segundo tempo da partida entre a seleção de Camarões e a da Colômbia, pela Copa das Confederações. Os especialistas não chegaram a um acordo a respeito da causa da morte.
Janeiro de 2004. O atacante da seleção húngara Miklos Fehér, de 24 anos, também jogador do Benfica de Portugal, depois de receber um cartão amarelo no jogo contra o Vitória de Guimarães, sentiu-se mal e desabou no gramado. A tentativa dos médicos em reanimá-lo dentro do próprio campo não deram resultado.
Outubro de 2004. De repente, o zagueiro Paulo Sérgio de Oliveira Silva, o Serginho, 30 anos, do São Caetano, durante o segundo tempo da partida de seu time contra o São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, cai no campo, inanimado, após sofrer uma parada cardiorrespiratória. Depois de uma espera de 15 minutos, o atleta é levado ao hospital, mas não resiste.
Agosto de 2007. Morre na Espanha, com 22 anos, o lateral espanhol Antonio Puertas, em conseqüência de duas paradas cardiorrespiratórias ocorridas durante o jogo entre o Sevilla, time do jogador, contra o Getafe, pelo campeonato nacional.
Ataque rápido
Até alguns anos, ocorrências como essas passavam quase que totalmente despercebidas. Porém, a partir de 2004, esses acidentes, em geral mortais, tornaram-se cada vez mais freqüentes. Serginho, Foé, Fehér e Puertas, entre outros esportistas, mais ou menos conhecidos, fazem parte do time dos que sofreram o que os especialistas chamam de "morte súbita no exercício e no esporte" (MSEE). "A morte súbita é conceituada como um evento inesperado, natural, não traumático, de evolução rápida, que pode ocorrer desde o início do aquecimento, até 24 horas após o término da atividade", explica Sérgio Mainine, ortopedista, professor de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina do ABC e especialista em Medicina Esportiva.
UM CHOQUE SALVADOR
A morte súbita pode deixar de ser um quadro irreversível se sua vítima for atendida de imediato e tratada rapidamente com um choque elétrico aplicado no peito. Como a causa mais comum é a arritmia cardíaca, o coração passa a bater descontroladamente. Em casos extremos, chegam a 700 batimentos por minuto, ou seja, dez vezes acima do normal. Se a vítima não for socorrida prontamente, a morte é certa. Por isso, especialistas insistem para que existam desfibriladores à mão em locais públicos e privados como os campos de futebol e academias esportivas. O choque elétrico causado pelo aparelho faz com que o coração volte a bater em seu ritmo normal. Se o equipamento for usado no próprio local da emergência, até três minutos após o incidente, a vítima tem 70% de chance de sobreviver, avisa Nabil Gorayeb. Entretanto, de acordo com o especialista, um desfibrilador sem um pessoal treinado para usálo torna-se de pouca serventia: "Além de um maior rigor na exigência de exames médicos prévios que constatem ou não a presença de eventuais problemas, é fundamental que as academias também tenham equipes qualificadas de prontidão para o caso de uso do desfibrilador", alerta o especialista. |
A real incidência da MSEE entre os atletas ainda é desconhecida até porque estudos realizados em várias partes do mundo encontraram valores muito diferentes. As variações estatísticas ficam por conta de fatores como idade, sexo e tipo de esporte praticado. Um estudo realizado na região de Veneto (Itália) mostrou uma incidência de 2,3 mortes súbitas por 100 mil atletas/ano. Já as MSEE causadas por problemas cardiovasculares giraram em torno de 2,1 por 100 mil atletas/ ano. Em resumo: de acordo com as pesquisas, pode-se concluir que, para pessoas saudáveis que se exercitam, seja para competir ou não, o risco de MSEE é muito baixo.
Esse número, porém, parece ser um pouco mais elevado entre atletas profissionais. De acordo com o cardiologista Nabil Gorayeb, os dados oficiais do Comitê Olímpico Internacional (COI), coletados de 1966 a 2004, mostraram que 1.101 atletas faleceram de morte súbita, sendo 10% dos óbitos provocados por infartos do miocárdio, o que não é freqüente tratando-se de pessoas com menos de 35 anos.

Batidas descompassadas
Nabil Gorayeb, que também é especialista em Cardiologia Esportiva no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, faz questão de informar que qualquer esporte, mesmo o que exige um esforço intenso, quando praticado por atletas de coração sadio, nunca é o causador de mortes súbitas. "As MSEEs estão relacionadas a alguma doença preexistente, seja ela já conhecida ou não. Em uma faixa etária inferior a 35 anos, as causas mais freqüentes são cardiopatia congênita, genética ou ainda infecciosa, contraída por meio de uma virose ou doença de Chagas", avisa.
Ou seja: a MSEE ocorre em corações que já tenham apresentado algum tipo de problema: "Sabemos que 85% das mortes súbitas ocorrem após grave e instantânea arritmia conhecida como fibrilação ventricular", exemplifica.
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