|
|
 |
Gente que deu a volta por cima
DEPOIMENTO A DANIELA TALAMONI
"Consegui me curar da afasia"
Após traumatismo craniano, o ator Nicholas Wahba, 32 anos, não
podia pronunciar uma só palavra. Hoje, ele é porta-voz de um grupo de afásicos
que faz teatro para se recuperar
"Do acidente que sofri há 16 anos, dos 12 dias em coma e mais 2 meses internado
no hospital, só me lembro do que me contam: estava no 2º colegial e depois do
treino de basquete resolvi pegar uma carona com um colega mais velho, de 18 anos.
Éramos quatro no carro, e o motorista decidiu participar de 'um racha', mesmo
sob protesto geral. Para ultrapassar um carro, ele invadiu a pista contrária e
não conseguiu evitar o choque com o ônibus que vinha em nossa direção. Por milagre,
ninguém morreu e todos tiveram ferimentos leves, menos eu. Coloquei um pino no
braço esquerdo, passei por uma traqueostomia (abertura da traquéia) para poder
respirar. Fui, também, submetido a cirurgia plástica no rosto e a uma operação
no cérebro para retirada de um coágulo. Além das cicatrizes físicas e emocionais,
fiquei com graves seqüelas. Quando recebi alta, tinha dificuldades para caminhar
e, pior, não era capaz de pronunciar uma só palavra, completar um raciocínio ou
sequer entender o que as pessoas diziam. Estava afásico - justo eu, que fazia
teatro no colégio e pretendia ser ator. Os médicos não garantiram uma recuperação
total, e nem pude expressar minha tristeza por isso.
O show deve continuar
Com a ajuda da família, dos amigos e das sessões de fisioterapia e fonoaudiologia,
pronunciei a primeira palavra ('lama') após três meses e retomei o treino de basquete
no ano seguinte. Mas queria mesmo era voltar a estudar e a pisar no palco. Percebendo
essa angústia, minha mãe, que é psicóloga, começou a pesquisar e a criar exercícios
e jogos que pudessem estimular minha capacidade de compreensão e raciocínio. O
esforço dela foi fundamental para me ajudar a terminar os estudos e até rendeu
um livro. Mesmo falando como um bêbado, ingressei em grupos teatrais, e as falas
dos meus personagens foram aumentando à medida que melhorava. Hoje, totalmente
recuperado, sou assistente de direção e atuo no grupo Ser em Cena, cujo elenco
é formado apenas por pacientes afásicos. Em outubro, numa iniciativa inédita no
país, nós conseguimos apresentar a peça Reconstruindo a Palavra no teatro Bibi
Ferreira, em São Paulo. Mais um desafio vencido! E que venham outros...”
DEPOIMENTO A DANIELA TALAMONI
|
 |
|