
VOCÊ SABIA QUE TOM CRUISE É DISLÉXICO? E QUE LEONARDO DA VINCI, WALT DISNEY E AGATHA CHRISTIE, ENTRE OUTROS FAMOSOS, TAMBÉM TINHAM O DISTÚRBIO?
Quantas vezes você já não ouviu a frase 'fulano é preguiçoso, indisciplinado', referindo- se a uma criança com dificuldade de aprendizado na escola? A dislexia, distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração, que atinge meninos e meninas, é mais comum do que se imagina.
Diagnóstico e tratamento precoces podem transformar um disléxico num profissional brilhante na fase adulta. Afinal, a dislexia é uma dificuldade que pode ser vencida com tratamento.
"É um problema crônico, mas se houver atendimento adequado, a criança não terá seu desenvolvimento prejudicado e poderá se tornar um profissional de sucesso", explica o foniatra Alfredo Tabith Júnior, da Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Derdic/PUC).
Para a psicóloga Maria Mônica Bianchini, da Associação Brasileira de Dislexia (ABD), as dificuldades impostas pela pressão e a falta de oportunidade na fase adulta afetam a empregabilidade e os relacionamentos em geral. Estimular a capacidade do cérebro de relacionar as letras aos sons que as representam e, posteriormente, ao significado das palavras que elas formam, são algumas das terapias utilizadas
Trocando as letras
O cérebro de uma pessoa disléxica é idêntico ao de outra sem o distúrbio. A diferença pode estar relacionada às falhas nas conexões cerebrais. Nestas pessoas, as informações são processadas numa área diferente do cérebro. "A dislexia é um funcionamento inadequado do lobo temporal, responsável pela linguagem lida e escrita", diz Bianchini (veja quadro). Numa linguagem mais popular, pode-se dizer que 'embaralha' as ligações cerebrais principalmente nas regiões responsáveis por controlar a leitura, a escrita e o poder de soletrar. Com essa área 'desorganizada', a criança começa a demonstrar dificuldades já na pré-escola. Alguns pesquisadores acreditam que, quanto mais cedo for tratada a dislexia, maior a chance de corrigir essas falhas.
Diagnóstico preciso
Especialistas alertam que um diagnóstico preciso depende de uma boa avaliação multidisciplinar - realizada por uma equipe formada por psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo, neurologista, oftalmologista e otorrinolaringologista. E de exclusão - isto é, eliminação das causas ligadas a problemas neurológicos e psicológicos como déficit intelectual, deficiências auditivas e visuais ou lesões cerebrais. "A escola, além dos pais, exerce um papel importante no reconhecimento do problema, pois é na fase de alfabetização que mais se manifestam os sinais do distúrbio", explica o foniatra Alfredo Tabith Júnior.
Normalmente, a avaliação é indicada a partir dos 7 anos de idade. Mas é muito comum, no caso de histórico familiar, iniciar o acompanhamento numa fase anterior. "Ao ser diagnosticada, é possível amenizar em até 80% os comprometimentos por meio de terapias. Neste período, o cérebro vai sofrer um treinamento para se adaptar", afirma Bianchini.
Apesar de não existir uma divisão instituída cientificamente de graus de comprometimento, a dislexia pode ser definida como leve, média ou severa. Segundo Bianchini, a leve se reflete principalmente na dificuldade de interpretação durante a leitura. Já a média pode ser observada principalmente na fase dos 10 aos 12 anos, idade em que a criança troca as letras e omite sílabas na escrita. E a severa, quando após dois anos de alfabetização, a criança não escreve e nem lê.
QI acima da média
Crianças disléxicas que recebem tratamento desde cedo superam o distúrbio e se igualam àquelas que nunca tiveram problemas de aprendizagem. O tratamento pode demorar até três anos, porque diferente da fala, que a criança aprende pela convivência com os outros, a leitura precisa ser ensinada. Com o uso de métodos adequados, atenção e carinho (para a criança se sentir querida e valorizada), a dislexia pode ser vencida.
Uma pesquisa da fonoaudióloga e psicopedagoga Maria Ângela Nogueira Nico, coordenadora técnica e cientifica da ABD, baseada numa amostragem com 230 disléxicos severos, de 7 a 19 anos, atendidos pela entidade em 2006, mostra que todos têm nível de Coeficiente de Inteligência (QI) acima da média; apresentam dificuldade na memória verbal e de curto e longo prazos, assim como nas provas de leitura, escrita, ditado e cópia e na decodificação de letra e som, na organização e processamento visual; apresentam disgrafia (conhecida por letra feia) e disnomia (dificuldade de nomear objetos); 85% sofre de algum tipo de alergia; 70% tem o fator de hereditariedade presente e 40% é hiperativo.
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