Viva Saúde
Edição 55 - Novembro/2007
 
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Crônicas para deixar o seu dia-a-dia mais leve
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Tinha o sono leve e foi acordado pelo movimento de um vulto que ia e vinha com alguma coisa nas mãos. tomava doses extras de ansiolítico, desses de tarja preta, para ferrar no sono e evitar contemplar o vaivém daquela criatura

POR STELLA GALVÃO

ILUSTRAÇÃO: ROBINSON ONIASTinha sido mais um daqueles dias ultracansativos. Tomou uma sopinha leve para não sobrecarregar o estômago, viu um pouco de TV e foi dormir, já atendendo aos apelos da mulher. O quarto era amplo e arejado e era possível deixar a cama sem atropelos. Ele gostava de saber que não toparia em móveis se fosse sonâmbulo. Tinha o sono leve, e numa madrugada foi acordado pelo movimento de um vulto que ia e vinha com alguma coisa nas mãos. Na primeira vez, depois de muito tentar decifrar a visão, arriscou acordar a mulher, que emitiu apenas um ‘grumf’ e virou de lado. No café da manhã, perguntou a ela e aos filhos. Nada. Foi para o trabalho com aquela fixação. Quando sobrou um tempinho, correu ao ambulatório médico. Era o plantão do psiquiatra, e soube que poderia estar tendo tais visões sob efeito do estresse, como se ansiasse por memorandos durante a madrugada. Recebeu um calmante leve, fitoterápico. Resolveu também reiniciar as caminhadas com o cachorro, pobre sedentário que já dava sinais de rigidez óssea, tal a inatividade. Nessa noite ele comeu o franguinho grelhado com aqueles legumes maravilhosamente temperados na água e sal. A mulher mal tocava no prato, mas podia ser vista depois no fogão arrancando lascas do pernil da véspera. Aquela noite transcorreu tranqüila, mas foi um sossego provisório. Ele não chegava a acordar. Era como se sonhasse, mas a forma humana era nítida demais para ser ignorada. Chega, gritou ao acordar, e saiu dali direto para a igreja do bairro, onde o padre era adepto do sincretismo religioso. Água benta, sal grosso, uma cruz de madeira de lei e um cordão de alho, lá foi ele praticar exorcismo no quarto do casal. A mulher assistiu à sessão sem entender a obsessão do marido e com ânsia de vômito — odiava alho. Feita a limpeza de supostos espectros, a casa respirou Allium Sativum por uma semana, quando o vulto também sumiu. Quando retornou, ele decidiu enfrentar o medo e matriculou-se em uma academia de fortões, todos adeptos do Jiu-Jitsu. Tomava doses extras do ansiolítico, agora sintético, desses de tarja preta, para ferrar no sono e evitar contemplar o vaivém daquela criatura. Um dia, sentindo-se pronto, deixou o comprimido de lado e preparouse com vários alongamentos. Eram umas três da madruga quando ele avistou. Pé ante pé, sem pijama e apenas de sunga, como um autêntico combatente de luta livre, ele preparou-se para desferir a chave de braço. Os golpes foram interrompidos pelos gritos da mulher, jogada ao chão, mas ainda abraçada ao último pedaço de pizza do jantar...


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