Houve época em que a única forma admissível e saudável de se praticar sexo era a dois, ou seja, com um parceiro ou uma parceira. Conseqüentemente, a masturbação era considerada um desequilíbrio e deveria ser evitada a qualquer custo. Caso alguém não conseguisse manter o controle, seria classifi cado como portador de onanismo, denominação atri buí da, então, a tal 'distúrbio'.
Dessa época remontam os mitos - muitos dos quais ainda persistem - de que a masturbação faz crescer pêlos nas palmas das mãos, enlouquece, enfraquece e causa anemia, entre tantas outras crenças infundadas que serviram (e ainda servem) para coibir essa prática.
Ao longo do século XX, o conhecimento científi co a respeito dos hábitos e costumes se contrapôs à crendice popular e revelou que os homens se masturbam mais freqüentemente do que as mulheres. E que pessoas que se permitem à masturbação, desde a adolescência, têm menos inibição sexual ao longo da vida e mais prazer no relacionamento sexual.
Nesse sentido, a masturbação tem sido aceita por terapeutas sexuais como procedimento útil à superação da difi culdade para o orgasmo, especialmente no caso das mulheres. Acreditam os terapeutas que, ao se masturbar, a mulher co meça a conhecer melhor o seu corpo, como e onde estimulá-lo, para obter satisfação. Pode, inclusive, atingir o orgasmo solitário, que representaria um estágio anterior ao orgasmo compartilhado (a dois).
Tendo descoberto em si as características do estímulo que lhe dá prazer, a duração para que o mesmo a conduza ao clímax, as zonas de excitação que produzem melhor resposta, a intensidade do toque que tem mais resultado, a mulher estará apta a comunicar essa descoberta ao seu parceiro.
E essa comunicação não necessita ser verbal, principalmente se ele ou a mulher não estiver completamente à vontade para essa conversa. Movimentos corporais, insinuações ou sinalizações, durante o ato sexual, falam por si só. E são o elo entre o sexo solitário e o sexo compartilhado.
No jogo erótico, quem perde é quem não se en trega. Para quem concordacom isso, o orgasmo solitário deixa de ser o único possível
pa ra ser uma entre tantas outras possibilidades de realização sexual.
Carmita Abdo
é psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), fundadora e coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas