As pessoas reagem à dor de forma diferente. Marina, 30, precisa de dose dupla de anestésico só para tratar um dente. Já a sua irmã, Sílvia, 41, enfrentou o parto com tanta tranqüilidade, que chegou a ser saudada pela equipe médica. Reações opostas numa mesma família são comuns. Afinal, no campo da resistência e da superação, outros fatores pesam muito mais do que a herança genética.
De acordo com o anestesiologista Onofre Alves Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED), a resposta aos estímulos é individual e depende de como cada um reage emocionalmente a eles. A psicóloga Dirce Perissinotti, doutora em neurologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), concorda. Para ela, em 70% dos casos, a sensação dolorosa tem uma razão afetiva-emocional. “É o que chamamos de memória implícita da dor. O cérebro se habitua a responder por meio de dores a situações que não estejam necessariamente relacionadas a doenças ou agressões e alterações físicas”, explica Dirce.
Um perfil típico é o da pessoa com dificuldades para lidar com suas frustrações e insatisfações. Conforme a psicóloga, a rigidez da musculatura, a tensão postural e uma irrigação sangüínea ineficaz, provocadas por estresse e pressões diárias, facilitam a resposta orgânica de que algo dói.
Resistir ou atacar
O neurocirurgião Cláudio Corrêa, coordenador do Centro de Dor do Hospital Nove de Julho, em São Paulo, também chama a atenção para a forte questão cultural envolvida. De um lado, há uma tradição das pessoas recorrerem à automedicação sempre que surge alguma dor no dia-a-dia.
“Essa prática retarda o diagnóstico e, por conseqüência, o tratamento correto.” O contrário também ocorre.
“Há pessoas que excedem os limites da resistência e se recusam a usar qualquer medicação, o que também é incorreto”, explica o neurocirurgião.
CAUSAR UM INCÔMODO DANADO E ATÉ IRRITAÇÃO, MAS EM ALGUNS CASOS É SÓ UMA FORMA DE DEFESA CONTRA PRESSÕES EMOCIONAIS
Na prática, é como se algumas pessoas incorporassem um típico chorão que toma um comprimido ao primeiro sinal de dor; outros, ao contrário, se comportam como verdadeiros már tires, sofrendo com se renidade.
A DOR É A PRINCIPAL CAUSA DE FALTA AO TRABALHO E À ESCOLA, DE LICENÇA MÉDICA E APOSENTADORIA POR DOENÇA, DE ACORDO COM ESTIMATIVAS DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DA DOR (SBED)
Se a comparação extrapolar para diferenças culturais, um exemplo clássico de resistência à dor vem do povo japonês. Já os latinos, brasileiros incluídos, tradicionalmente falam e se queixam mais.
Muito além do remédio
O controle da dor não depende só do alívio do sintoma, mas também da modificação das condições que favorecem o seu aparecimento, como desequilíbrio emocional, problemas de postura (como se senta, como dorme...) o ambiente físico (mobília, iluminação do local...) e o estilo de vida. Quem faz atividade física regularmente, por exemplo, está mais protegido contra as dores. Pode parecer estranho, porque são os atletas que ficam mais expostos a lesões, mas o anestesiologista Onofre Alves Neto explica: “aqueles que praticam exercícios regularmente e com a devida orientação têm um limiar muito mais alto de resistência à dor, por causa da maior liberação de endorfinas pelo organismo, substâncias consideradas analgésicos naturais. O autocontrole exigido na prática de algumas atividades, como ioga e artes marciais, também ajuda o corpo a relaxar e a suportar melhor as sensações de desconforto provocadas pela dor.
Ninguém melhor do que o portador de dor crônica (como é considerado aquele que sofre com um incômodo por mais de três meses seguidos) para concordar com a necessidade de uma intervenção ampla — que vai além do uso de analgésicos ou antiinflamatórios. Especialmente quando as dores constantes acabam afetando de vez o tecido nervoso e a pessoa passa a ter de lidar com o incômodo até o final da vida. Neste caso, as técnicas de relaxamento podem ajudar muito o paciente a conviver melhor com a dor. Já a psicoterapia cognitivo-comportamental seria capaz de mudar o comportamento do paciente crônico, melhorando a relação dele com o sintoma.
Quando o sintoma é nunca sentir dor
Enquanto que para muitas doenças a dor dá o sinal de alarme, para um problema raro, a sua ausência é o principal sintoma. Trata-se da analgesia congênita, originada de um defeito genético que impede a pessoa de sentir qualquer tipo de dor — mesmo as mais intensas. Por exemplo, se quebrar um braço, só vai perceber tarde demais, quando nervos, tecidos e articulações desse membro já estão totalmente comprometidos. Por essa razão, os portadores dessa doença raramente conseguem chegar à puberdade. |
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