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Edição 54 - Outubro/2007
 
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  Dor até quanto você deve suportar
Se você recorre aos remédios ao primeiro sinal de dor, deveria pensar duas vezes. Um analgésico, por exemplo, pode mascarar sintomas para um bom diagnóstico

POR STELLA GALVÃO

As pessoas reagem à dor de forma diferente. Marina, 30, precisa de dose dupla de anestésico só para tratar um dente. Já a sua irmã, Sílvia, 41, enfrentou o parto com tanta tranqüilidade, que chegou a ser saudada pela equipe médica. Reações opostas numa mesma família são comuns. Afinal, no campo da resistência e da superação, outros fatores pesam muito mais do que a herança genética.

De acordo com o anestesiologista Onofre Alves Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED), a resposta aos estímulos é individual e depende de como cada um reage emocionalmente a eles. A psicóloga Dirce Perissinotti, doutora em neurologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), concorda. Para ela, em 70% dos casos, a sensação dolorosa tem uma razão afetiva-emocional. “É o que chamamos de memória implícita da dor. O cérebro se habitua a responder por meio de dores a situações que não estejam necessariamente relacionadas a doenças ou agressões e alterações físicas”, explica Dirce.

Um perfil típico é o da pessoa com dificuldades para lidar com suas frustrações e insatisfações. Conforme a psicóloga, a rigidez da musculatura, a tensão postural e uma irrigação sangüínea ineficaz, provocadas por estresse e pressões diárias, facilitam a resposta orgânica de que algo dói.

Resistir ou atacar
O neurocirurgião Cláudio Corrêa, coordenador do Centro de Dor do Hospital Nove de Julho, em São Paulo, também chama a atenção para a forte questão cultural envolvida. De um lado, há uma tradição das pessoas recorrerem à automedicação sempre que surge alguma dor no dia-a-dia.

“Essa prática retarda o diagnóstico e, por conseqüência, o tratamento correto.” O contrário também ocorre.

“Há pessoas que excedem os limites da resistência e se recusam a usar qualquer medicação, o que também é incorreto”, explica o neurocirurgião.

CAUSAR UM INCÔMODO DANADO E ATÉ IRRITAÇÃO, MAS EM ALGUNS CASOS É SÓ UMA FORMA DE DEFESA CONTRA PRESSÕES EMOCIONAIS

Na prática, é como se algumas pessoas incorporassem um típico chorão que toma um comprimido ao primeiro sinal de dor; outros, ao contrário, se comportam como verdadeiros már tires, sofrendo com se renidade.

A DOR É A PRINCIPAL CAUSA DE FALTA AO TRABALHO E À ESCOLA, DE LICENÇA MÉDICA E APOSENTADORIA POR DOENÇA, DE ACORDO COM ESTIMATIVAS DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DA DOR (SBED)

Se a comparação extrapolar para diferenças culturais, um exemplo clássico de resistência à dor vem do povo japonês. Já os latinos, brasileiros incluídos, tradicionalmente falam e se queixam mais.

Muito além do remédio
O controle da dor não depende só do alívio do sintoma, mas também da modificação das condições que favorecem o seu aparecimento, como desequilíbrio emocional, problemas de postura (como se senta, como dorme...) o ambiente físico (mobília, iluminação do local...) e o estilo de vida. Quem faz atividade física regularmente, por exemplo, está mais protegido contra as dores. Pode parecer estranho, porque são os atletas que ficam mais expostos a lesões, mas o anestesiologista Onofre Alves Neto explica: “aqueles que praticam exercícios regularmente e com a devida orientação têm um limiar muito mais alto de resistência à dor, por causa da maior liberação de endorfinas pelo organismo, substâncias consideradas analgésicos naturais. O autocontrole exigido na prática de algumas atividades, como ioga e artes marciais, também ajuda o corpo a relaxar e a suportar melhor as sensações de desconforto provocadas pela dor.

Ninguém melhor do que o portador de dor crônica (como é considerado aquele que sofre com um incômodo por mais de três meses seguidos) para concordar com a necessidade de uma intervenção ampla — que vai além do uso de analgésicos ou antiinflamatórios. Especialmente quando as dores constantes acabam afetando de vez o tecido nervoso e a pessoa passa a ter de lidar com o incômodo até o final da vida. Neste caso, as técnicas de relaxamento podem ajudar muito o paciente a conviver melhor com a dor. Já a psicoterapia cognitivo-comportamental seria capaz de mudar o comportamento do paciente crônico, melhorando a relação dele com o sintoma.

Quando o sintoma é nunca sentir dor
Enquanto que para muitas doenças a dor dá o sinal de alarme, para um problema raro, a sua ausência é o principal sintoma. Trata-se da analgesia congênita, originada de um defeito genético que impede a pessoa de sentir qualquer tipo de dor — mesmo as mais intensas. Por exemplo, se quebrar um braço, só vai perceber tarde demais, quando nervos, tecidos e articulações desse membro já estão totalmente comprometidos. Por essa razão, os portadores dessa doença raramente conseguem chegar à puberdade.
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