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Edição 54 - Outubro/2007
 
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  Cla ela está na berlinda
Chamada até bem pouco de "GORDURA DO BEM, EMAGRECEDORA(!)", A CLA é alvo de suspeitas e teve a sua comercialização proibida no Brasil como suplemento alimentar. Entenda por que a queridinha da vez virou vilã

POR STELLA GALVÃO

Num curtíssimo espaço de tempo, a queridinha dos descolados e famosa por seu efeito emagrecedor caiu no limbo. A CLA (ácido linoléico conjugado), um tipo de gordura trans, daquelas obtidas a partir de um processo de hidrogenação que pode ser natural ou industrial, está na berlinda. Estudada há duas décadas por pesquisadores americanos, ela já foi considerada um potente anticancerígeno. Depois, uma aliada dos que desejavam emagrecer. Daí, a virar cápsulas e se propagar entre os que buscam a boa forma, foi um pulinho.

O problema é que ainda não há nada comprovado sobre os propalados benefícios da CLA. E as pesquisas se dividem — uma hora com muitos prós; em outra, com centenas de contra-indicações. Foi, aliás, pela ausência de informações confi áveis e defi nitivas que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu proibir, em abril, a venda dos tais compostos sintéticos. Na prática, porém, as cápsulas continuam sendo comercializadas livremente — principalmente pela internet!

O assunto veio à tona num recente workshop promovido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). O encontro reuniu, a convite da Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais (SBAF), especialistas de todo o país para discutir a gordura que, segundo Jocelem Salgado, presidente da entidade e professora de Nutrição da Esalq, continua sendo ilegalmente vendida no país, sim, com fi cha técnica e até indicações.

Embora os suplementos estejam na mira da Anvisa, essa gordura está presente nos alimentos, sendo consumida “desde primórdios da humanidade”, como explicou o bioquímico Henry Okigami, professor da Universidade Federal de Goiás (UFGO). A mais comum, a 9-cis:11-trans (não se assuste, pois o nome se deve às ligações entre as moléculas de gordura), é encontrada na carne bovina e nos laticínios. Como é produzida naturalmente por bactérias que habitam o aparelho digestivo dos ruminantes, acaba sendo mais freqüente nos produtos derivados desses animais. A 10-trans:12-cis existe em pequenas proporções nesses mesmos produtos. Para se ter uma idéia, 70% a 90% da CLA presente na dieta humana é do tipo 9-cis:11-trans.

ESSAS TRÊS LETRINHAS PODEM FAVORECER A PERDA DE MASSA GORDA. AO MESMO TEMPO, AUMENTAM OS RISCOS DE DIABETES, INFARTO E CÂNCER

Tipos e efeitos diferentes Os estudos comprovaram que justamente a 10-trans:12-cis atuaria sobre o tecido adiposo, resultando na perda de massa gorda em experimentos realizados com animais. De acordo com o pesquisador Everson Nunes, do Laboratório de Metabolismo Celular do departamento de Fisiologia da Universidade Federal do Paraná (PFPR), pesquisas recentes mostraram, ao mesmo tempo, graves efeitos colaterais decorrentes desse uso. Entre eles, o aumento da resistência à insulina (problema que afeta diabéticos), a diminuição da leptina (hormônio que controla a sensação de saciedade), bem como infl amações no fígado e em diferentes células, que podem agravar doenças como arterosclerose (formação de placas no interior dos vasos sangüíneos), além de certos tipos de câncer.

“A utilização indiscriminada desse tipo de CLA, por meio das cápsulas, pela população que busca resultados estéticos, pode provocar o surgimento ou o agravamento de doenças crônicas”, alerta Nunes.

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