Todas as noites é a mesma coisa. Humberto M, 28 anos, executivo, sai do trabalho após as 20 horas, enfrenta 45 minutos de trânsito, e vai buscar a namorada para pegar a última sessão de cinema ou encontrar com os amigos num pub. Dormir? Só depois das duas da madrugada.
Com Cynira W, 31 anos, é diferente. Ela usa o horário pós-trabalho, em torno das 21 horas, para ir às compras, papear com os amigos ou malhar na academia. Chega em casa ‘religiosamente’ à uma da madrugada. Toma um bom banho e vai para a cama com o notebook para responder e-mails, conversar com os ‘net amigos‘... Sim, ela dorme, mas sempre com o relógio apontando para as 2h30.
Tudo estaria bem, se os dois entrevistados não precisassem chegar ao trabalho às 8 horas da manhã — o que significa acordar às 7, isto é, dormir cerca de cinco horas por noite. Na verdade, o que eles melhor fazem é engrossar as estatísticas de pessoas que exageram na privação do sono, ou seja, praticam a sonorexia, termo não oficial para definir o problema.
UM NOVO TERMO
Sonorexia, palavra que une sono + anorexia não é ainda o nome científico para o exagero da privação do sono — e entende-se como exagero dormir menos de sete horas por noite de segunda a sexta-feira.
“Para o termo ser adotado é preciso uma série de análises, pesquisas e estudos. Nos anos 1969/70, a hipertensão só teve seu nome oficializado após este processo”, explica Flávio Aloe, neurologista e especialista em medicina do sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo. |
O que leva alguém a esse ponto, geralmente, é a sensação de não conseguir dar conta de tudo o que se quer ou precisa fazer nas 24 horas do dia. Aí, voluntariamente — sim, pois a sonorexia não é uma síndrome, mas um mau hábito com conseqüências diversas sobre a saúde — a pessoa se priva das horas de sono a que o seu organismo precisa e tem direito.
"A PESSOA QUE SOFRE DE INSÔNIA SE ESFORÇA PARA DORMIR. NA SONOREXIA, O ESFORÇO É PARA SE MANTER MAIS HORAS ACORDADA"
O problema pode até começar devido a uma real falta de tempo, mas tende a se tornar crônico quando a pessoa ‘descobre’ que dormir menos significa aproveitar mais o tempo.
Isso pode chegar a ponto de dormir apenas duas ou três horas por noite — as baladas, os bares e os restaurantes estão lotados de ativos sonoréxicos.
Argumento de peso para mulheres
Estudo realizado nos Estados Unidos, pela Sociedade Torácica Americana, revelou que mulheres que dormem em média cinco horas ou menos têm 32% de chances a mais de ganhar peso e 15% de probabilidades de se tornarem obesas — percentuais que não assombram as que dormem pelo menos sete horas por noite. “A tendência do organismo é ‘recompensar’ o pouco sono com maior ingestão calórica e melhor aproveitamento das refeições. O pior é que o corpo se reprograma para este novo ritmo e mesmo que a pessoa volte para uma rotina saudável, por um bom tempo ela vai manter a tendência para engordar”, alerta o neurologista Flávio Aloe. Isso foi comprovado.

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Atrasando o cérebro
É verdade que cada organismo tem a sua própria quota saudável de horas dormidas e que este número varia de pessoa para pessoa. Mas a boa média é entre sete a oito horas diárias. Ao perder mais da metade desse tempo, o sonoréxico priva áreas-chave do seu cérebro de processos importantes, que só ocorrem enquanto dormimos.
“A rotina de dormir menos pode comprometer, por exemplo, a capacidade de julgamento do indivíduo sobre coisas simples como virar à esquerda ou à direita”, explica Flávio Aloe, neurologista e especialista em medicina do sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Algumas conseqüências da privação de sono são conhecidas e fáceis de perceber, como a sonolência diurna e reflexos menos rápidos e certeiros. “Mas outras ocorrem no processo de produção ou retenção de substâncias químicas que agem no cérebro, e a extensão de seus danos ainda não são conhecidas a fundo”, ilustra Aloe.
Os efeitos podem ser ainda mais danosos no cérebro das crianças, especialmente quando estão em fase de estudo e aprendizado.
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