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A visão médica sobre assuntos polêmicos
A prevenção da infertilidade começa na adolescência
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| AGNALDO CEDENHO, PROFESSOR DE MEDICINA DA UNIFESP, É ESPECIALISTA EM INFERTILIDADE HUMANA E VARICOCELE |
Todas as mulheres merecem o meu respeito. Apesar do constrangimento que uma consulta ginecológica pode eventualmente causar, esse não é um motivo que as impeça de acompanhar ou incentivar filhas, amigas ou irmãs a procurar esse especialista. A atitude tem como conseqüência a possibilidade do profissional esclarecer a importância da prevenção de doenças e alertá-las para a responsabilidade de cada uma em relação à saúde do próprio corpo. Infelizmente, essas iniciativas femininas não se repetem no mundo dos homens. E isso precisa mudar.
Por alguma razão que, imagino, seja parte da tradição machista vigente, jovens raramente procuram um médico no início da adolescência. Se fazem isso, a queixa tem a ver com algum problema visível no órgão genital. Poucos sabem que a prevenção da infertilidade masculina deve começar na adolescência, como vários trabalhos científicos realizados pelo mundo têm demonstrado.
"É PRECISO ACABAR COM A CRENÇA DE QUE TUDO VAI MUITO BEM NO MUNDO DOS HOMENS, A MENOS QUE SE CONSTATE ALGO DE ESTRANHO NO PÊNIS"
Num momento de tantas mudanças físicas pode ocorrer um defeito no retorno venoso dos testículos, acarretando a formação de varizes dentro da bolsa testicular e, conseqüentemente, alterando a produção de espermatozóides pelos testículos. Vou simplificar: comparemos a bolsa testicular com um refrigerador, cujo papel principal é manter os testículos a uma temperatura abaixo da corporal. A temperatura pode variar muito entre as várias espécies de mamíferos. Na raça humana, tal diferença é de 2º C. Em outras espécies (roedores), a diferença pode chegar a 8º C! Isso quer dizer que os testículos funcionam melhor quando estão com a temperatura menor que a do corpo. Quando ocorre a formação das varizes, conhecidas pelos médicos como varicocele, o mecanismo termo-regulador fundamental é quebrado e os testículos passam a apresentar a mesma temperatura do corpo.
Um trabalho recente com 500 adolescentes do sexo masculino, realizado na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), constatou que 27% deles apresentavam varicocele em grau mais avançado. Outra constatação importante: devido a algumas particularidades da drenagem venosa do testítulo esquerdo, esse era sempre o mais afetado quando a enfermidade se manifestava. Assim, a diminuição dele em relação ao existente no lado direito ultrapassava a marca de 20% (os adolescentes sem varicocele apresentaram o mesmo volume testicular nos dois lados). Com relação aos portadores da doença, apenas 50% dos meninos tinham testículos iguais, nos graus mais avançados da varicocele.
A luz amarela se acendeu quando o estudo verificou que os adolescentes com varicocele não apresentavam sintomas; ou seja, eles não tinham a menor idéia do que estava acontecendo. Concluí que é preciso acabar com a crença de que tudo vai bem no mundo dos homens, a menos que se constate algo de estranho no pênis. Os meninos precisam saber que existem outras estruturas vizinhas tão importantes quanto o órgão genital e que, sem bons testículos, não haverá reprodução na fase adulta.
Se considerarmos que os efeitos danosos causados pela varicocele se desenvolvem com o decorrer dos anos, concluiremos que os jovens estão perdendo uma excelente oportunidade de se prevenir de uma das causas da infertilidade. E que num futuro não muito distante, esses rapazes, já não tão moços, precisarão recorrer a clínicas especializadas em reprodução assistida para tentarem realizar o sonho de ser pai. |
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