Estudo publicado recentemente pela revista Science, de circulação mundial, mostrou que o cérebro é capaz de suprimir memórias desagradáveis. O trabalho, realizado com ajuda de ressonância magnética, induziu um grupo de voluntários a imaginar e, na seqüência, apagar da mente as cenas negativas. Segundo o psiquiatra brasileiro, José Toufi c Thomé, mais importante do que deletar os eventos ruins é encará-los de peito aberto, pois são eles que “nos fortalecem para enfrentar as nossas fragilidades”.
Viva Saúde: O nosso cérebro é realmente capaz de apagar memórias ruins?
JOSÉ TOUFIC THOMÉ: Sim. Mas é preciso entender que a memória pode ser estudada segundo aspectos neurológicos, biológicos, psicológicos, psicopatológicos e fi losófi cos. Só é possível entendê-la a partir da integração desses conceitos. O estudo divulgado pela Science valida a capacidade que o cérebro tem de esquecer, mas evidentemente a memória não serve só para isso. Sabemos que, do ponto de vista neurológico, o cérebro trabalha para o esquecimento.
Esquecer é um ato fi siológico, saudável. Veja o caso do recente desastre de avião da TAM (que ocorreu em São Paulo no dia 17 de julho e vitimou mais de 180 pessoas). Qual a melhor proteção, num primeiro momento, para evitar o sofrimento emocional perante esse tipo de tragédia? É esquecer. Faço de conta que não aconteceu, deleto da mente. Como o cérebro tem essa capacidade, ele retira a lembrança da mente.
VS: Qual a diferença entre cérebro e mente?
JOSÉ: A mente é um componente fundamental do cérebro. É lá que há vida psíquica e o lado emocional, que começa a ser medido também bioquimicamente, com pesquisadores rastreando em quais partes dele estão localizados determinados sintomas psicopatológicos. Portanto, cérebro e mente são inseparáveis. Voltando à questão da memória, vale lembrar que ela é um elemento-chave de ligação entre passado, presente e a projeção do futuro. Sem ela, não conseguiríamos nos organizar no dia-a-dia. Eric Kandel, prêmio Nobel de Neurociências, diz que o estudo da memória passa também pela biologia e não pode se limitar à neurologia.
VS: Quando a angústia vivenciada se transforma em trauma?
JOSÉ: Uma situação como a do desastre nos põe em contato com a morte e com a nossa vulnerabilidade. Uma pessoa que durante o seu desenvolvimento sempre viveu situações traumáticas, por abandono, dor, desamparo ou sofrimentos reais, provavelmente reagirá de determinada maneira toda vez que se deparar com a morte. Ou seja, lá atrás houve algum tipo de trauma que fi cou mal resolvido. O trauma surge quando não conseguimos trazer o afeto ou sentimento adequado para a situação vivenciada. Nesses casos, a ansiedade ou tensão poderá irromper a qualquer momento. Se for um evento violento desmontará o equilíbrio psíquico, provocando o desenvolvimento do que chamamos transtorno de estresse pós-traumáutico
VS: Quando esse tipo de estresse se manifesta?
JOSÉ: O estresse pós-traumático existe em qualquer situação de desastre, incêndio, roubo, seqüestro, estupro, violência, catástrofe natural ou provocada pelo homem. Num primeiro momento, a pessoa não consegue utilizar a memória de forma adequada. Fica prisioneira desse fato, vive relembrando a cena e entra em um estado de colapso mental.
VS: O que pode ser feito nessas situações?
JOSÉ: Nós não nos preparamos para isso. O ser humano evita todo o tempo entrar em contato com aquilo que o desagrada, que o faz sofrer. Por que há tanta gente interessada em ir ao local das tragédias? Desastres e catástrofes mobilizam em nossa memória o medo da morte. Eu posso negar ou tentar enfrentar. Desastres nos põem em contato com a nossa vulnerabilidade: nós somos muito frá geis perante o universo. Se vivo constantemente essa vulnerabilidade que me fragiliza, preciso me tratar.
Devo procurar um especialista para fazer psicoterapia. Por outro lado, o tratamento com medicamentos é um elemento facilitador na compreensão do processo da origem do problema e na busca do equilíbrio.
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