Se você treme de medo só de pensar em experimentar um alimento geneticamente modificado, leia esta conversa com o biólogo Marcelo Menossi, doutor em genética molecular. O tema ainda é polêmico e gera muitas dúvidas. Por isso, o especialista explica desde o be-a-bá sobre o assunto até os avanços que prometem, em breve, lançar uma nova geração de transgênicos: não apenas mais resistentes a defensivos e pragas, mas também ricos em nutrientes essenciais à prevenção de doenças. E o que é melhor: capazes de produzir medicamentos e vacinas.
Viva Saúde: O que são alimentos transgênicos?
Marcelo Menossi: São produtos que recebem genes de outros organismos. Por isso, são conhecidos também como organismos geneticamente modificados (OGMs). Essa alteração ocorre graças à engenharia genética, cujas técnicas começaram a ser desenvolvidas na década de 1950 - quando foi desvendada a estrutura do DNA, o código genético. Chamada de transgenia ou DNA recombinante, essa possibilidade de retirar o gene de um organismo e inserir em outro é empregada na indústria farmacêutica há mais de 20 anos para produzir insulina. Na agricultura, seu uso tem como objetivo aprimorar o alimento, melhorando suas qualidades nutricionais, e a produtividade. As plantas transgênicas, cultivadas no mundo há uma década, são mais resistentes aos insetos e herbicidas aplicados no combate às ervas daninhas. Isso ocorre porque nessas plantações foi inserido o gene da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), um dos principais inseticidas naturais usados na agricultura orgânica para o controle de pragas e de mosquitos transmissores de doenças.
VS: Há estudos sobre os efeitos deles na saúde humana?
Marcelo: Como qualquer outro alimento, os transgênicos também são monitorados pelos órgãos competentes, mesmo após a liberação para consumo humano e animal. Os produtos disponíveis hoje no mercado foram testados, legalmente aprovados e são consumidos nos Estados Unidos e Argentina há, pelo menos, dez anos. Neste período, não houve registro de danos causados à saúde. A avaliação de segurança alimentar dos produtos transgênicos segue padrões internacionais definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Food and Agriculture Organization (FAO). Mas vale destacar que, para a ciência, em qualquer campo de pesquisa, não existe o conceito de risco zero.
VS: Quais vantagens eles oferecem?
Marcelo: Os consumidores dispõem de alimentos que praticamente não tiveram contato com defensivos agrícolas e que são mais resistentes a pragas. Basta ver o caso do milho. Durante o armazenamento, seus grãos estão mais sujeitos aos fungos que produzem substâncias prejudiciais à saúde. Neste caso, o milho transgênico ficaria imune a essa contaminação. O meio ambiente também ganha. Estudos da consultoria britânica PG Economics revelaram que o cultivo de transgênicos, desde 1996, proporcionou uma redução mundial de mais de 15% nos impactos provocados pelo uso de pesticidas na natureza. Com isso, tivemos 224 mil toneladas a menos de agrotóxicos no meio ambiente. No Brasil, a redução foi de 6%, entre 1996 e 2005, no cultivo da soja resistente.
VS: Como o controle é feito?
Marcelo: Atualmente, cada planta transgênica é submetida a testes que vão considerar características como sua composição, nível de toxicidade e seu potencial de causar alergias. Todos os países que produzem e comercializam transgênicos formaram comissões de especialistas - que são responsáveis pela autorização e pela liberação comercial dos produtos. No Brasil, essa função está a cargo da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), composta por 27 doutores das mais renomadas instituições do país. Essa comissão avalia os processos ligados a esses produtos, antes de chegarem ao mercado.
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