
Dorminhoco. Assim era chamado o relações-públicas Mário Offenburger, de 27 anos. O apelido começou na infância. Aos cinco anos, quando participava da brincadeira "esconde-esconde", ninguém o encontrava. Ele simplesmente dormia no "esconderijo", permanecendo ali por horas. Com o tempo, o que era uma vantagem passou a prejudicá-lo, na faculdade, no trabalho... "Às vezes, dormia conversando com as pessoas e cochilava em frente ao computador", conta Mário. O administrador de empresas Maurício Alves, de 42 anos, sabe bem o que é passar por esses constrangimentos. Quando criança e adolescente, ele costumava dormir muito, mas há cinco anos a situação se agravou. "Cheguei a cochilar no trabalho. Resultado: acabei sendo demitido", lamenta. Já a assistente administrativa Mariana Perpétua Esteves da Rocha, de 53 anos, por outro lado, sente dificuldades para dormir desde 1983. "No começo era esporádico, mas há dez anos a insônia se intensificou", relata.
Agora, o que essas três pessoas têm em comum, além do fato de representarem o contingente de 70% da população mundial adulta que, segundo pesquisa da Fundação Americana do Sono, sofre ou já sofreu com algum distúrbio do sono? Todos eles resolveram investigar o que exatamente os fazia viver sonolento ou os impedia de ter uma noite tranqüila e um sono restaurador. Eles foram submetidos à polissonografia.
"Nesse exame (feito em 2002), os especialistas descobriram que eu entrava no estágio do sono mais profundo já no primeiro minuto. Por isso, vivia dormindo. Para evitar que isso ocorra na hora errada, tomo um medicamento que melhora a minha atenção e me mantém acordado durante todo o dia", comemora Mário Offenburger, diagnosticado com narcolepsia, uma doença que causa sonolência excessiva a qualquer hora.
Que avaliação é essa?
Segundo Lia Bittencourt, coordenadora médica do Instituto do Sono e professora adjunta de Medicina e Biologia do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o exame é feito durante uma noite inteira, em um quarto apropriado para dormir. O paciente deve chegar às 20 horas e não pode ter ingerido bebida alcoólica 48 horas antes. Se costuma tomar alguma medicação, deve mantê-la normalmente, para que não haja alterações na avaliação. Antes de dormir, são colocados sensores no couro cabeludo e no corpo do candidato ao teste. Eles registram, durante o sono, as atividades cerebrais, cardíacas e musculares. Ainda detectam movimentos dos olhos, do tórax, abdômen, bem como o fluxo de ar que passa pela boca e pelo nariz. Essas informações são monitoradas por um técnico especializado.
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Durante a polissonografia, sensores permitem o registro de atividades cerebrais, cardíacas e musculares, bem como movimentos do tórax, dos olhos e do abdômen. O exame dura das 21 horas às 6 horas e é feito enquanto o paciente dorme |
No local, há câmeras com sistema infravermelho que permitem gravar e visualizar as imagens no escuro - ver se a pessoa vira muito de um lado para o outro na cama, se movimenta as pernas sem parar.... Há ainda um sistema de transmissão de som no quarto, possibilitando que o técnico ouça e identifique se a pessoa emite algum ruído, como ronco. Às seis horas da manhã o paciente acorda, e os dados coletados são analisados pelo médico, que identifica se a pessoa possui algum distúrbio.
A especialista Lia Bittencourt explica que é fundamental uma boa interpretação do sono, que é dividido em dois períodos, o REM (Rapid Eyes Movements, traduzindo: Movimentos Oculares Rápidos), considerado o mais profundo, e o não-REM, dividido em quatro fases, nas quais não ocorrem tais movimentos. Essas fases têm características próprias, por isso, a análise deve ser bem-feita para identificar os eventos que são normais e também os que não o são.
Hoje, o Instituto do Sono, em São Paulo, é considerado referência nesse exame na América do Sul e realiza, diariamente, 74 procedimentos. Desde a sua criação, em 1992, já foram feitos mais de 80 mil exames de todos os tipos, além da polissonografia, como eletroencefalograma, exame de latência do sono (em que o paciente dorme cinco vezes por um período de 20 minutos a cada duas horas) e o CPAP (a desobstrução das vias aéreas, indicada em casos de apnéia).
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