Ainda me impressiono quando vejo crianças nascendo com defeitos físicos e mentais que poderiam ser evitados. Medidas óbvias, como uma boa alimentação, o abandono do consumo de álcool e do tabagismo, na gravidez, podem reduzir a freqüência desses casos. Mas a realidade é outra e, por isso, insisto em chamar a atenção para esses cuidados importantes.
Afinal, são cerca de 9 milhões de crianças que nascem com algum tipo de anomalia. Desse total, 3,3 milhões correm risco de morte, especialmente em países em desenvolvimento. No Brasil, não há dados oficiais. Mas estima- se que esse número esteja em torno de 5 % do total de nascimentos.
Esses dados foram apresentados no Documento Declaração do Rio, que fechou a 3ª Conferência Internacional de Defeitos Congênitos e Deficiências no Mundo em Desenvolvimento, realizada no último mês de junho, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu cerca de 80 palestrantes e 700 participantes, entre médicos, biólogos, pesquisadores e associações de pais, vindos de 50 países, como China, Índia, África do Sul, Canadá, Estados Unidos e países Árabes.
Felizmente, também tivemos boas notícias na Conferência. Percebemos que em países onde existem programas efetivos de prevenção, o número de crianças com defeitos congênitos caiu em até 70%. As medidas adotadas vão desde uma alimentação correta e orientada à mulher, a partir do momento em que ela pensa em engravidar, até o acompanhamento minucioso da gestante durante o pré-natal.
O grande desafio, portanto, é oferecer acesso a todas as mulheres — especialmente às futuras mamães — às informações básicas e necessárias para a proteção do futuro bebê. Vários fatores ambientais estão relacionados com os defeitos congênitos e são muito nocivos no primeiro trimestre da gestação. Eles vão desde as infecções maternas (como rubéola), exposição à radiação e o uso de drogas e alguns medicamentos até a falta de nutrientes essenciais ao bom desenvolvimento do feto. Nesse último caso, a prevenção é simples.
Consumir ácido fólico (uma vitamina B) durante a gestação pode evitar defeitos no tubo neural do feto — estrutura precursora da medula espinhal e do cérebro. Portanto, sua ausência pode provocar anencefalia (o bebê nasce sem cérebro), espinha bífida (defeitos graves na coluna), paralisia dos membros inferiores, hidrocefalia (acúmulo de líquido no crânio) e retardo mental.
No Brasil, a adição de ácido fólico às farinhas, pelas empresas, é uma exigência do Ministério da Saúde, desde 2005. Mulheres que desejam engravidar também são orientadas a aumentar o consumo de alimentos ricos em ácido fólico, como folhas verdes, brócolis e vagens.
Outro vilão é a bebida alcoólica. Seu consumo, mesmo que mínimo, pode causar problemas no desenvolvimento físico, mental ou neurológico do bebê. Uma taça de vinho ou um copo de chope pode sim fazer mal ao feto, porque o álcool é capaz de causar reações diferentes em cada organismo.
Por essas e outras, no final da 3a Conferência Internacional, todos os participantes e atuantes em organizações governamentais e não-governamentais se comprometeram a pulverizar cada vez mais informações. Vamos lutar para que programas de alerta e prevenção sejam implementados em todas as classes sociais, para que o número de bebês com anomalias congênitas diminua. E aproveito para deixar o meu apelo às futuras mamães: cerquem-se de cuidados, vacinem-se contra a rubéola, alimentem-se bem, não bebam, não fumem, não usem drogas... Um minuto de descuido pode afetar a vida inteira do seu filho.