Viva Saúde
Edição 50 - Julho/2007
 
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a visão médica sobre assuntos polêmicos
  Vencendo os limites do corpo, em qualquer situação

Por mais triste que pareça a notícia de que um membro do corpo terá de ser amputado, atualmente, essa condição não é mais sinônimo de uma nova fase de limitações. Exemplos não faltam. Quem não se lembra do corredor americano Marlon Shirley, recordista mundial dos 100 metros rasos nas Paraolim píadas de Sidney (Austrália), realizada em 2000? E não precisamos ir muito longe para nos certificarmos disso. É só repararmos nos parques e calçadões das cidades o aumento do número de corredores que utilizam próteses. A prática esportiva, neste caso, é uma maneira de trazer inúmeros benefícios não só para a reabilitação física, social e psicológica desses indivíduos, mas também para melhorar sua qualidade de vida.

Uma das provas de que uma pessoa amputada pode levar uma vida normal e superar suas dificuldades físicas pode ser vista durante os Jogos Parapanamericanos, que este ano acontecem por aqui. Os brasileiros, inclusive, têm tido uma notória participação nas últimas competições, o que aumenta suas chances de liderar o quadro de medalhas. Este acontecimento, aliás, leva a uma relevante observação: muitos atletas, presentes ou não no evento, somente iniciaram a prática de uma atividade esportiva logo depois de uma amputação, seguida de reabilitação e colocação de prótese.

Tudo isso é possível, hoje em dia, porque a amputação é vista como uma solução terapêutica, ou seja, um tratamento com a capacidade de permitir ao indivíduo retomar suas atividades após um incidente. Além disso, os cirurgiões são especializados nesse tipo de procedimento, o período entre a cirurgia e a colocação da prótese dura somente seis semanas (em outros tempos, levava-se anos) e os programas de reabilitação são conduzidos por uma equipe multidisciplinar. Sem falar no avanço da tecnologia empregada na fabricação das próteses. Os amputados podem escolher sua prótese de acordo com suas necessidades, ou seja, de forma que se adaptem à sua rotina.

Existem até modelos que são feitos especificamente para a prática de exercícios físicos, por exemplo.

O triste é que nem sempre foi assim. Antigamente, há muitos séculos, as amputações eram realizadas com guilhotinas em campos de batalha, e os amputados eram considerados pessoas inválidas, as próteses eram esculpidas em madeira (geralmente por artesões) e programas de reabilitação física não eram, nem ao menos, levados em conta pelos médicos.

GRAÇAS À ATITUDE DOS PACIENTES E AO AVANÇO TECNOLÓGICO DAS PRÓTESES E DOS TRATAMENTOS, OS AMPUTADOS PODEM LEVAR UMA VIDA NORMAL

Para que a recuperação de um indivíduo que passou por um trauma, que o fez perder uma parte de seu corpo, tenha melhores resultados, é importante ter em mente que o processo de reabilitação deve ser iniciado o quanto antes. Muitas vezes, até mesmo antes da própria amputação ou, nos demais casos, no dia seguinte à cirurgia e deve continuar até que o paciente esteja totalmente adaptado a usar sua prótese.

Vale ressaltar que, assim que a pessoa retomar sua rotina, é importante que familiares e colegas reajam de uma maneira positiva e não a vejam como alguém derrotado, dependente, limitado ou incapacitado.

Outro comportamento muito comum que provoca desconforto aos pacientes é a inevitável curiosidade alheia. As pessoas acabam querendo saber detalhes sobre o acontecido e/ou lançam olhares pouco discretos sobre eles. Por outro lado, o paciente, muitas vezes, entende essas atitudes como preconceituosas e discriminatórias por parte da população. Entretanto, nem sempre é um sentimento ruim e sim falta de conhecimento das pessoas sobre o assunto.

FOTO: ARQUIVO PESSOAL JOSÉ ANDRÉ CARVALHO, DIRETOR DO INSTITUTO DE PRÓTESE E ÓRTESE (IPO) E AUTOR DO LIVRO AMPUTAÇÕES DE MEMBROS INFERIORES (ED. MANOLE)

 


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