Impossível não sentir inveja daquele colega de trabalho que está prestes a aproveitar as tão merecidas e esperadas férias, com direito a horas de ócio... Certo? Nem sempre. É assim que pensam as pessoas que sofrem com o estresse de férias ou vacation phobia (medo de férias, em inglês). O termo, criado por Cary Cooper, professor de Psicologia Organizacional e Saúde da Manchester School of Management, nunca esteve tão atual.
Em uma época em que a dinâmica do mercado de trabalho causa alterações de comportamento diante do acúmulo de funções e da possibilidade do desemprego, o direito ao descanso anual, garantido por lei, ultrapassa o status de benefício para se tornar um problema de saúde.
Isso acontece, porque, apesar de a maioria das pessoas saber que é uma pausa indispensável para a manutenção da qualidade de vida, algumas simplesmente não conseguem se des ligar dos compromissos diários e vestir o pijama e as pantufas.
Segundo dados da International Stress Management Association-Brasil (Isma-BR), entidade com filiais em 12 países e que se dedica à prevenção e ao tratamento do estresse, o medo de férias tem aumentado. É o que comprova a última pesquisa da Isma- BR sobre o assunto, realizada com 678 profissionais, na faixa etária entre os 25 e 55 anos, moradores das cidades de São Paulo e Porto Alegre. Dos pesquisados, 38% admitiram ter medo de dar uma pausa muito grande no trabalho e tirar férias de 30 dias.
OS AVESSOS ÀS FÉRIAS |
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Confira os resultados da mais recente pesquisa da International Stress Management Association-Brasil (Isma-BR), realizada com trabalhadores das cidades de São Paulo e Porto Alegre:
• 46% afirma sentir receio, porque é um período em que decisões importantes podem ser tomadas na empresa
• 32% teme mudanças de cargo ou responsabilidades, devido às fusões e enxugamentos
• 19% acha que pode colocar seu emprego em risco e ser demitido e uma parcela menor diz temer que ninguém sinta sua falta durante o período de descanso
• 76% respondeu que a sensação de bem-estar e relaxamento desaparece logo na primeira semana após o regresso das férias
• 16% consegue aproveitar, relaxar e melhorar o seu rendimento no trabalho
• 6% retorna ao mesmo nível de estresse de antes das férias
• 2% garante que após o descanso costuma voltar até mais estressado |
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Fácil de entender
O psicoterapeuta Geraldo Possendoro, especialista em Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que as pessoas, atualmente, ao se obrigarem a fazer tudo, não suportam a pressão e têm receio de ficar muito tempo parado sem fazer nada...Sentem que estão ficando para trás e que na volta terão serviço dobrado. “Mas é preciso controlar as ansiedades, para que o estresse não chegue à fase de exaustão, que leva a instabilidade emocional e doenças”, diz Geraldo.
Os chamados workaholics ou viciados em trabalho, por exemplo, com o passar do tempo, não conseguem dar uma pausa ao ritmo alucinante de atividades, exigências e metas. Os 365 dias do ano se tornam insuficientes. Pouco a pouco, a fadiga e a fraqueza, a irritabilidade, a impaciência e a dor muscular podem ficar rotineiras. Somam- se a esses outros sintomas, como o medo, a insegurança e as doenças ocupacionais. O sinal vermelho é dado quando ocorrem seqüelas mais gra - ves, como infartos e derrames.
Como evitar chegar a esse extremo? A psicóloga Ana Maria Rossi, da Isma-BR, afirma que uma das formas para diminuir a ansiedade provocada pela pressão do mercado é, ironicamente, se tornar competitivo. “As pes - soas devem manter os seus currículos atua lizados, fazer cursos de aperfeiçoamento (preferencialmente fora do período de férias) e manter uma rede social — o chamado network — que será um meio de mantê-las antenadas com as novas oportunidades de trabalho”. Segundo ela, as preocupações que assolam os trabalhadores na modernidade são plausíveis, mas devem ser administradas.
Já para a psicóloga Sâmia Simurro, vice-presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), tudo depende de como lidamos com as situações. “Por mais óbvio que pareça, as férias não programadas ou malprogramadas, em que não haja tempo para relaxar, descansar e recarregar as baterias, podem gerar um forte estresse, assim como qualquer outro momento do cotidiano”, pondera.
Outro grande perigo está nos extremos. O excesso ou mesmo nenhuma atividade praticada durante as férias também pode causar estresse. “O importante é se desligar do trabalho e de problemas pessoais. Não é bom “aproveitar” as férias, por exemplo, para fazer uma cirurgia (que não seja de emergência) ou resolver alguma pendência”, aconselha. O planejamento faz a diferença nessa hora.