Não é somente a automedicação que oferece riscos à saúde. Quando se trata do consumo de remédios, mesmo os prescritos pelos médicos podem causar problemas ao paciente — desde a perda da eficácia da fórmula até efeitos colaterais graves. Tudo irá depender de como e com o quê o medicamento será ingerido. Para falar sobre esse assunto que ainda provoca muitas dúvidas, Viva Saúde entrevistou a farmacóloga Patrícia Medeiros de Souza, com mestrado e doutorado em Farmacologia pela Universidade de Campinas (Unicamp) e professora adjunta de Farmacologia Clínica e Hospitalar da Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília (UnB).
Viva Saúde: Comprimidos, drágeas ou cápsulas precisam ser tomados somente com água?
Patrícia Medeiros: Nem todos os remédios precisam ser ingeridos necessariamente com água. Mas essa acaba sendo a recomendação da maioria dos médicos, porque durante a consulta e a prescrição do medicamento eles nem sempre dispõem de uma base de dados suficiente para garantir que aquela fórmula será compatível com outro tipo de líquido. Algumas associações, já se sabe, podem retardar ou mesmo reduzir a eficácia dos medicamentos.
VS: Existe alguma restrição em ingerir comprimidos com chás?
Patrícia: Normalmente, os chás de erva-doce, capim-limão, hortelã e até camomila, que parecem totalmente seguros à primeira vista, alteram o movimento do estômago e, por isso, acabam retardando muito mais a absorção do medicamento pelo organismo. Por exemplo, um remédio que seria absorvido em meia hora ou 40 minutos pode levar até duas horas para fazer efeito. A mistura de remédio com alguns chás também levam a reações perigosas. O chá de camomila, por exemplo, tem um princípio ativo que afina o sangue e o ácido acetilsalicílico (substância ativa da aspirina, AAS...) também apresenta esta ação anticoagulante. Quando eles são tomados juntos, pode ocorrer sangramentos.
VS: É verdade que tomar remédios com refrigerantes pode intoxicar o organismo? Por quê?
Patrícia: Quando ingerimos qualquer comprimido, primeiro ele vai para o estômago e se transforma em líquido, em seguida é distribuído no organismo e se liga a um receptor, onde acontece a ação farmacológica. Depois disso, não interessa mais que ele continue no organismo e acontece a eliminação. Os refrigerantes, especialmente os cítricos, que contêm suco de toranja (grapefruit), inibem as enzimas do fígado e impedem que o remédio seja eliminado. Como as pessoas não sabem que isso ocorre, tomam um outro comprimido e se intoxicam sem saber.
VS: Por que o suco de laranja não deve ser bebido com hipertensivos?
Patrícia: O suco ativa as enzimas digestivas que trabalham mais e acabam destruindo parte do medicamento. É por isso que a eficácia do hipertensivo, se tomado com suco de laranja, pode ser reduzida a 50%.
VS: O remédio pode ser partido?
Patrícia: Não, já que é impossível garantir que a metade do comprimido apresente exatamente 50% de todos os compostos usados na fórmula. A própria garantia que o laboratório oferece quanto à eficácia do seu produto se refere ao comprimido inteiro. Tão perigoso quanto partir o remédio ao meio é guardar a parte que sobrou desprotegida de agentes externos. Certamente, o medicamento estará contaminado, porque o invólucro que o embala foi aberto. A situação é ainda mais delicada no caso de remédios em drágeas — aquele comprimido com revestimento brilhante. Sua capa gastrorresistente tem a finalidade de passar pelo estômago, suportar a ação dos ácidos gástricos e só liberar o princípio ativo no intestino. Quando estas camadas são quebradas antes, esse resultado esperado do remédio fica comprometido. Esse procedimento é especialmente perigoso quando se trata de antibióticos.
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| GUARDAR COMPRIMIDOS JÁ ABERTOS É TÃO PERIGOSO QUANTO INGERIR A METADE DE UM REMÉDIO |
VS: Pode-se tomar água ou outro líquido após a ingestão de um medicamento de sabor desagradável?
Patrícia: Sim, mas neste caso tome água. O ideal, porém, é procurar alternativas de consumo, especialmente para as crianças — algumas costumam enjoar e vomitar quando sentem um gosto amargo ou diferente. É por isso que os laboratórios mascaram o sabor de alguns medicamentos com essências, estudadas para não interferir em sua ação e eficácia no organismo. Os remédios infantis são sempre mais docinhos, como os xaropes.
VS: É permitido triturar o comprimido se não conseguir engoli-lo?
Patrícia: Essa não é uma atitude recomendada, apesar de ser inevitável às vezes. O correto seria procurar no mercado farmacêutico o mesmo remédio, porém na forma líquida.
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