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| Wanda no lançamento do seu livro, no Instituto Paulista de Cancerologia (IPC), ao lado do sobrinho Adriano e do médico Ricardo Antunes, diretor do IPC |
É só uma dor de cabeça! Era o que eu dizia para mim mesma toda vez que sentia uma pressão desconfortável no cérebro. As consultas médicas também diziam a mesma coisa, confirmando que não havia, até então, razões para que eu me preocupasse com a minha saúde. Mas não foi preciso muito tempo para que eu percebesse justamente o contrário. Em 2003, de repente, acordei com uma sensação de sufocamento. Só consegui alguns segundos de fôlego para chamar o meu marido. Estava tendo uma inesperada convulsão...
Levada ao pronto-socorro, tive a recomendação de seguir direto para um hospital em São Paulo. Eu moro na cidade de Iguape, no litoral de São Paulo. No percurso, horas de muita apreensão para mim e para a minha família. Encontrava nas orações uma forma de me acalmar. Seria assim também durante a realização dos exames, que revelariam mais tarde, por meio de uma cirurgia, a gravidade do caso: havia um glioblastoma multiforme no meu cérebro. Em outras palavras: um tumor maligno agressivo.
Lembro-me muito bem que momentos antes da cirurgia o meu único pensamento — e minha torcida — foi para que não houvesse seqüelas. Para a minha alegria, foi exatamente isso que aconteceu. Seguindo todas as recomendações médicas, parti para o próximo grande passo na batalha contra o câncer, o tratamento.
A quimioterapia e a radioterapia, então, passaram a fazer parte da minha rotina, assim como os efeitos colaterais. Os cabelos começaram a cair, mas isso não me incomodava em nada, era apenas um detalhe que fazia parte do processo necessário para recuperar minha saúde.
A ironia é que antes de tudo isso acontecer eu tinha muita preocupação com a imagem. Quilinhos a mais, nem pensar! Manter o corpo sempre magrinho, nossa, era quase uma obsessão. Hoje estou livre disso, minha percepção mudou completamente. O câncer me fez enxergar que o que interessa é uma vida com saúde.
E assim seguia aquele ano de 2003, o tratamento, as reflexões, a luta diária a caminho da recuperação. E havia também a necessidade de saber mais um pouco sobre tudo o que envolvia esta doença, conhecer melhor o inimigo para enfrentá-lo com a estratégia mais eficaz. Meu marido pesquisava na internet o que podia sobre o assunto, e estas informações me deixaram bem consciente de que, apesar de todo o esforço dos médicos e da minha dedicação, havia o risco do tumor voltar.
Outra batalha vencida
A resposta para esse receio viria dois anos depois, quando foi necessária a realização de uma segunda cirurgia. Desta vez, o quadro era mais delicado: o tumor havia voltado, e bem maior. As complicações poderiam ter sido tão grandes quanto ele, mas, felizmente, tendo em vista a gravidade da situação, as seqüelas até que foram pequenas.
Fiquei com dificuldades de me locomover e o movimento da minha mão esquerda ficou um pouquinho limitado. Esta falta de apoio ainda não me permite ler, um hábito que sempre me deu muito prazer. Tenho substituído a leitura pela música, mas não abandonei a literatura.
Para expor todos os sentimentos envolvidos em uma experiência como essa, decidi escrever um livro. Dei o nome Um câncer, sem perder a alegria (Ed. Edições Inteligentes). Ele conta a minha história e a relação que tenho com a doença. É uma prova de que é possível sim conviver com um câncer, sem perder a alegria de viver.
Graças à fisioterapia, também já consigo dar meus “primeiros” passos. A quimioterapia é menos invasiva, feita com a ingestão de apenas um comprimido. Também mudei a qualidade da minha alimentação. Ela está bem mais saudável, rica em fibras e frutas, principalmente o mamão.
Acredito que a doença foi um grande desafio para mim, ela testou a minha paciência, um exercício que me ajudou a superar os momentos difíceis, sem me incomodar ou me irritar. E testou a minha capacidade de aceitação, necessária para que eu pudesse conviver com as seqüelas e aprender a lidar com as minhas novas limitações.
É claro que o sucesso da minha recuperação dependeu da sorte que tive de contar com excelentes profissionais e também do apoio que recebi da família. Sempre fui muito bem assistida. Tudo isso, aliado ao fato de ser uma pessoa de muita fé, me fez continuar cheia de esperança e expectativas, uma delas é a de voltar a lecionar.
As salas de aula sempre foram, por longos 16 anos, parte importante da minha vida. Como professora pude aplicar o conhecimento. Mas confesso que a experiência me trouxe muito mais. Aprendi bem mais do que ensinei.
E quero continuar aprendendo...”