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Edição 49 - Junho/2007
 
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  Tique TOC
Cacoetes e manias compulsivas afetam o bemestar físico e emocional de quem convive com eles. O que muita gente não sabe é que são sintomas de doenças bem diferentes

POR STELLA GALVÃO | ILUSTRAÇÃO RENAN ALVES

Alguns riem, outros se assustam e a maioria estranha. Pessoas com comportamentos incomuns precisam aprender cedo a conviver com seus problemas. O que poucos sabem é que tiques nervosos e hábitos obsessivos são sintomas de doenças diferentes. Muitas vezes — em um terço dos casos — as reações se manifestam simultaneamente, mas, ainda assim, por motivos distintos. Movimentos involuntários, como gestos bruscos, grunhidos, tremeliques, arremedos e estalidos com a boca, estão associados a um distúrbio neurológico denominado Síndrome de Gilles de la Tourette. Já manias compulsivas, como lavar as mãos toda hora, apagar e acender luzes, trancar portas várias vezes ou manter objetos sempre alinhados, indicam a existência do que os médicos convencionaram chamar de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). São distúrbios crônicos de origem genética que não afetam o raciocínio ou as habilidades físicas do doente, mas comprometem, e muito, a auto-estima das pessoas. Entenda a diferença entre ambos e saiba como tratá-los.

GESTOS INVOLUNTÁRIOS BRUSCOS

A síndrome de Gilles de la Tourette (SGT) é um transtorno neuropsiquiátrico definido pela presença de tiques motores e vocais. Geralmente começa com um piscar de olhos. Aos poucos vai se estendendo para outras partes do corpo, com uma variedade de repetições que mudam de uma pessoa para outra. A doença fica caracterizada quando esses movimentos involuntários passam a ocorrer com freqüên cia e desconfortam. Inicia-se, em geral, dos dois aos 15 anos e tende a desaparecer com o tempo.

Os tiques nervosos afetam pelo menos 1% da população mundial. Pesquisadores da Universidade de Yale (EUA) desenvolveram há menos de uma década uma teoria, segundo a qual, a origem da SGT seria determinada por interação entre alterações genéticas e fatores de risco externo. Situações de ansiedade e estresse seriam os “gatilhos” para o início dos sintomas. Uma seqüência de tiques, assim, funciona como descarga da tensão acumulada. “Discussões com os pais, exames escolares e situações públicas costumam desencadear essas reações involuntárias”, afirma Ana Gabriela Hounie, vice-coordenadora do Projeto Transtorno do Espectro Obsessivo-Compulsivo (Protoc), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O diagnóstico é baseado na manifestação dos tiques, ao vivo, diante do médico, ou por meio de filmagem. “O tratamento com medicamentos é indicado apenas quando o caso resulta em sofrimento e interferência na vida do paciente”, pondera a psiquiatra Ana Gabriela. São usados remédios como os neurolépticos (inibidores das funções psicomotoras que resultem de agitação ou excitação).

A psicoterapia é indicada para o portador da síndrome de Tourette para que ele reorga nize os movimentos repetidos a seu favor e também recupere a auto-estima, eventualmente abalada pelas reaçõe s aos tiques em ambientes públicos (escola, trabalho ou situações sociais). É o que propõe a psicologia do comportamento: explorar positivamente os tiques em atividades como tocar bateria, que requer batidas repetidas, ou artes marciais que trabalham também com movimentos fortes e ritmados. “É um modo de canalizar criativamente os trejeitos que poderiam atrapalhar o paciente em outras circunstâncias”, acredita a psicóloga Regina Wielenska, de São Paulo.

NEM TODO MOVIMENTO REPETITIVO É TIQUE E NEM TODO TIQUE SIGNIFICA SÍNDROME DE TOURETTE

Outra técnica utilizada é a de reversão de hábitos, que tem se revelado útil para melhorar o impacto social que os tiques nervosos podem causar, de acordo com a psicóloga Sonia Borcato, do Protoc. A pessoa treina com o terapeuta tiques alternativos. Assim, quem fazia um gesto obsceno ou gritava, ao sentir o impulso, pode substituí-lo por uma passada de mão no cabelo, por exemplo. “É importante lembrar que os tiques nervosos não são voluntários ou propositais e o treino resulta em menor repercussão para o paciente”, ressalta a especialista do Protoc.

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