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| A alegria de ser avó encorajou Lúcia a superar os medos e a lutar pela vida |
"Minha história não pode ser contada de forma cronológica, desde a infância. Mas, sim, a partir do dia em que aprendi a viver novamente. Considero-me um exemplo de vida: tenho uma família feliz, um filho, duas filhas, quatro netos e um que está a caminho. Entretanto, uma em especial, a Beatriz, minha primeira neta, é a responsável por essa minha nova fase.
Ela nasceu em um período bem difícil, em que eu cheguei a acreditar que era mesmo o meu fim. Eu estava com mais de 45 anos, quando minha filha Mônica me fez um convite surpreendente: fazer faculdade com ela. Como eu era proprietária de uma empresa bem-sucedida, não tinha planos de mudar, porém, com a insistência dela, aceitei o desafio e nos formamos em biologia, em 1997.
Estava em plena fase de expansão intelectual. Mas, no ano seguinte, eu e meu marido decidimos nos separar, após muitos anos de casamento. Mesmo achando que essa seria a melhor solução, o processo me abateu profundamente. As dores e angústias emocionais refletiram no meu corpo, que logo apresentou sinais de que algo não ia bem. Passei por duas cirurgias: uma, acreditando que se tratava apenas de um mioma; outra, quando já era certa a existência de um câncer no endométrio. Tive que retirar o útero e os ovários, para garantir que o tumor não se alastrasse.
Descobrir que estar com câncer é um processo doloroso. Sempre acreditamos que essas coisas só acontecem com os outros...
Depois das intervenções cirúrgicas, vieram as inúmeras sessões de radioterapia e, então, vi que precisaria enfrentar algo muito forte: o medo. Um dia, voltando sozinha de carro para casa, ‘travei’: não conseguia mais dirigir. Senti uma ansiedade estranha, meu coração disparou...
No começo, achei que estivesse ‘enfartando’. Parei o carro e liguei para o meu filho, que me socorreu e me levou ao hospital mais próximo.
Passei por uma série de exames, mas estava tudo bem fisicamente. Nas semanas seguintes, esses sintomas foram aumentando e, só então, recebi o diagnóstico: estava com síndrome do pânico. A partir daí, passei a ter pavor de sair de casa, de trabalhar, de passear. Eu já estava frágil pelo tratamento contra o câncer e a síndrome me abateu ainda mais. Esse, sem dúvida, foi o pior momento da minha vida. Mas, graças ao apoio da minha família, dos meus filhos e netos, fui superando os problemas de forma gradativa, de cabeça erguida.
A força que faltava
Com o nascimento da Beatriz, minha primeira neta, voltei de algum lugar, onde as sensações de temor e insegurança me dominavam, e passei a enfrentar de verdade aqueles ‘bichos’ todos. Ao ver um ser tão pequeno, tão frágil, me dei conta de que precisava e podia ser forte. O amor que senti por ela foi fundamental para a minha recuperação.
Beatriz me trouxe de volta à realidade, me fez dar ainda mais importância à família, aos momentos de felicidade e ensinamentos diários, aos pequenos gestos e vitórias. Me dediquei a entender melhor o que o meu corpo e a minha mente queriam, fiz exercícios, busquei me tratar corretamente, mergulhei nos estudos, no trabalho... Tudo isso só ajudou. Ao voltar a estudar, realizei-me profissionalmente. Em 2005, eu e minha filha concluímos nossos mestrados em Saúde Pública, pela Universidade de São Paulo. Atualmente, trabalhamos juntas na empresa do setor de controle de pragas que construí com meu ex-marido. E todos os dias, ao acordar, tenho a certeza de que sou uma pessoa muito feliz.
Relembrando todos os obstáculos que, por pouco, impediram a minha evolução profissional e pessoal, hoje entendo que os caminhos que tomei foram conduzidos por Deus e, naturalmente, refletem a pessoa que sou agora. Ter uma base familiar sólida, é claro, fez toda a diferença nos momentos mais difíceis”.
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Entenda bem
O câncer de endométrio ocupa o quarto lugar dos tumores malignos que atingem a população feminina. Em segundo lugar, o câncer mais freqüente entre as brasileiras, é o pélvico. O tratamento, na maioria das vezes, é cirúrgico e inclui a retirada do útero e ovários. Pacientes com contra-indicação cirúrgica são tratadas com radioterapia. Nos casos mais avançados são indicados, ainda, a quimioterapia e outros procedimentos mais específicos. |