As perdas fazem parte da existência, são imprevisíveis e inevitáveis. As primeiras ocorrem já na infância, época em que o bebê é alimentado no seio materno. Um dia essa fonte de nutrição e carinho se vai e o nenê conhece, então, o sentimento da privação. Outras frustrações vão se sucedendo, como a chegada do irmão, que rouba a atenção dos pais e obriga a criança a aprender a dividir. "Ao longo da vida, o indivíduo sofre perdas que vão se repetindo à medida que envelhece. A sensação de incompletude o acompanha, ele tem que aceitar o fato de não ser o melhor, o mais belo, enfim, o bebê maravilhoso que foi um dia", explica a psicanalista Dorli Kamkhagi, mestre em gerontologia e coordenadora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.
Mas, na terceira idade, elas continuam acontecendo, porém de forma mais constante. A primeira é que o idoso tem que lidar com a concretização de uma perda dolorosa e inexorável: a da juventude. O corpo se transforma, tem outro desempenho, não acompanha a jovialidade que muitas vezes so brevive internamente. O olhar do mundo nesse momento também é di ferente, quase hostil. "O distanciamento imposto pela sociedade machuca. Os papéis que o idoso ocupava não se sustentam, e ele percebe que não é visto mais como alguém imprescindível e importante na família, no trabalho, no universo", diz Dorli.
Uma perda pode abrir novas possibilidades
Segundo a psicóloga cognitiva com - portamental da Universidade de São Paulo (USP), Nancy Erlach, mesmo sofrendo privações ao longo da vida, a verdade é que o ser humano dificilmente se sente preparado para quaisquer perdas - seja a indiferença da sociedade, a morte de um familiar querido, a dispensa de um bom emprego, a ruína de um patrimônio material. "Em qualquer idade é doloroso e, no caso das pessoas com mais de 60 anos, duas situações podem se apresentar: lidar bem com a frustração pela serenidade e maturidade adquiridas ou, no outro extremo, se deixar abater, além da conta, pela solidão e tristeza já incorporadas."
Há luz no fim do túnel? Sem dúvida. Há casos em que a dor serve como mola propulsora para uma mudança de visão e atitude, aquela tão propalada "virada de mesa". É como se a perda repentina fizesse a pessoa repensar a vida, refletir e cogitar novas possibilidades, enfim, descobrir uma forma de compensação ou mesmo um novo sentido para a existência.
"Em vez de acalentar um sentimento de vazio e exclusão, é possível dar a volta por cima e imaginar caminhos diferentes de satisfação e felicidade. Qualquer movimento nesse sentido é positivo, e não são poucos os exemplos de pessoas acima dos 60 anos que, realmente, viveram histórias marcantes de superação", diz Nancy.
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Virando o jogo
Foi o que aconteceu com Josefa Pelegrino, 73 anos, professora aposentada, que perdeu o marido em 2002. Vítima do mal de Parkinson, ele ficou internado por um ano e, durante todo esse período, ela o acompanhou de perto e não arredou o pé da cama do hospital. "Achávamos que ela não resistiria a todo aquele sofrimento e à morte do meu avô", relembra a neta Priscilla Manfredini.
Surpreendentemente, Josefa não se afundou, mas encontrou forças den tro de si para vencer a tristeza. "Acredito que podemos ser felizes em qualquer idade. Não quero me transformar em uma velhinha chata e ranzinza, por isso fui buscar fontes de lazer e alegria", conta. Então, ela passou a in tegrar um grupo da sua faixa etária que literalmente não pára quieto e já é reconhecido em Itatiba, cidade do interior de São Paulo, local em que mora, como "superanimado". Hoje, vaidosa e cheia de novos amigos, participa de várias atividades promovidas pelo grupo: o chamado "baile da saudade", sempre às quintas-feiras, o grupo do coral da prefeitura, que se encontra mensalmente, e excursões de um grupo entusiasmado para diversos lugares, como Zoológico e Jardim Botânico, que ocorrem algumas vezes ao ano.
Vida em comunidade
O exemplo de Josefa é positivo e merece ser seguido. A interação com pessoas da mesma idade é essencial para a saúde física e mental dos idosos em geral, especialmente para aqueles que passaram por um trauma. As atividades em grupo devolvem a alegria de viver e despertam sentimentos às vezes adormecidos, como a auto-estima.
Foi o que aconteceu com Cecília Dias de Toledo, 84 anos, secretária de uma academia de dança que, desde cedo, mostrou ao mundo sua personalidade guerreira. Paulistana e nascida no tempo em que as mulheres tinham poucos direitos na sociedade, iniciou o curso de medicina e só desistiu porque, aos 22 anos, se casou com um advogado. Juntos, tiveram três filhos e construíram um bom patrimônio. "Infelizmente o pior aconteceu e perdemos tudo. Sofri muito e, aos 60 anos, tive que começar a trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Foi duro", relembra.
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