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Edição 46 - Maio/2007
 
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  É tempo de recomeçar
A equação é simples: menos cigarro = mais qualidade de vida. Já que é assim, quebre a dependência do tabaco o quanto antes

POR JANETE TIR
ILUSTRAÇÃO MG STUDIO

Quando ficamos mais velhos, logo o corpo denuncia: o pique já não é mais o mesmo para enfrentar a correria do dia-adia, o cansaço logo aparece, a pressão teima em aumentar, o controle das taxas do diabetes e do colesterol precisam de atenção dobrada e o coração pode falhar com mais facilidade. Apesar desse quadro ser comum - todo ser humano passa por esta fase -, o hábito de fumar pode prejudicar (e muito!) uma velhice saudável e com qualidade de vida.

Os especialistas não cansam de repetir: fumar não faz bem à ninguém. Nem aos jovens, nem aos mais velhos. E eles são enfáticos: quanto mais cedo o cigarro é deixado de lado, maiores são as chances de uma vida longa e com qualidade. Ou seja, se um fumante, com 45 anos de idade, consegue parar de fumar, ele tem chances de viver dez anos a mais.

Se a decisão vier só aos 55 anos de idade, essa média de longevidade cai para oito anos. "Existe um estudo com 40 mil pessoas, que constatou que as pessoas que pararam de fumar com 70 anos logo ganharam qualidade de vida", comenta Ciro Kirchenchtejn, pneu mologista e coordenador do Cen tro de Tratamento do Tabagismo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo. "Mas esse ganho não é igual para aquelas que pararam de fumar quando eram mais novas. Os que passam dos 60 anos de idade fumando são considerados, do ponto de vista médico, sobreviventes. Por causa do vício, muitas doenças já poderiam ter aparecido", diz.

Decisão que vale uma vida plena
Parar de fumar não é nada fácil. Principalmente para quem já tem este hábito há anos. No outro prato da balança, entretanto, estão os benefícios.

Os riscos de pneumonia e de crises de bronquite diminuem, a disposição aumenta, é mais difícil acontecerem os derrames e os problemas cardíacos. "Até os ex-fumantes que já têm alguma doença séria, como um câncer de pulmão, por exemplo, respondem ao tratamento com 30% a mais de eficácia do que aqueles que continuam a fumar", entusiasma o pneumologista.

Mas, por que é tão difícil parar de fumar? A culpa de tanta dependência é da nicotina, presente no cigarro. Ela é uma substância que age no cérebro e inibe a produção de dopamina, o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer, de saciedade e de relaxamento. "Logo que a pessoa pára de fumar, a produção de dopamina não volta ao normal. Por isso, ela fica irritada, ansiosa, estressada, perde a concentração com facilidade, tem alteração de sono e do apetite. Depois de duas a três semanas sem fumar, o cérebro volta a produzir dopamina naturalmente, sem precisar do estímulo do cigarro", explica o médico Ciro Kirchenchtejn.

Mas nem sempre é fácil convencer quem já passou dos 60 anos a rever seus hábitos. "Tenho pacientes que dizem 'estou no fim da vida e vou ter de enfrentar um desafio desses!" Mas quando vencem, eles se sentem extremamente poderosos. Principalmente porque atingiram um objetivo que muitos jovens não conseguem. Quando se vêem livres da dependência, essas pessoas mais velhas têm uma satisfação tão grande, que repercute em outros aspectos da vida. Os próprios filhos ou parentes ficam surpresos: o pai ou o avô que vivia deprimido, sem vontade de sair de casa, só vendo televisão e fumando, agora está mais disposto, leva o cachorro para passear, deseja trabalhar, sente-se mais capaz", diz o pneumologista. Enfim, é uma nova qualidade de vida.

Recursos que podem ajudar
Apesar de muita gente conseguir deixar o cigarro só contando com a força de vontade, muitas pessoas precisam de auxílio extra. No Centro de Tratamento do Hospital Oswaldo Cruz, quem procura ajuda para parar de fumar é encaminhado para a terapia cognitiva comportamental. Segundo os especialistas do Centro, esse é o primeiro passo para o fumante entender o que o faz acender muitos cigarros por dia. "A pessoa que fuma precisa perceber que não é um comportamento normal recorrer a uma droga, como a nicotina, 15 ou 20 vezes por dia", alerta Ciro Kirchenchtejn.

O único alívio, para quando a vontade de fumar é muito grande, é a goma de mascar de nicotina. Um recurso que pode ser usado até que o organismo se adapte à nova realidade. Outros métodos também podem ajudar nessa etapa: na auriculoterapia, pequenas agulhas de acupuntura são colocadas na orelha e ajudam a aliviar a ansiedade; e os adesivos de nicotina, que liberam a substância aos poucos no organismo. Também existem os remédios que cortam a necessidade de nicotina, mas eles só devem ser recomendados por especialistas.

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