Viva Saúde
Edição 45 - Abril/2007
 
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A visão médica sobre assuntos polêmicos
  Doses de bom senso

O questionamento sobre os reais benefícios do consumo de suplementos de vitaminas e sais minerais voltou à tona, recentemente, após a publicação de um artigo no Journal of the American Medical Association (JAMA), a respeito da suplementação de selênio, betacaroteno e das vitaminas A, C e E. Segundo os autores do estudo, esses elementos não contribuem pa ra estimular a longevidade, como se acre dita. Pelo contrário, podem aumentar os riscos de morte.

A interpretação desses dados é questionável. Os diversos estudos que foram incluídos no artigo utilizaram suplementos com valores acima do proposto como limite máximo tolerável pelo organismo, o que já representa um perigo à saúde. Portanto, são necessários outros estudos para avaliar uma possível relação entre o uso desses produtos e o aumento da mortalidade.

De fato, a correria típica das grandes cidades, a falta de tempo para a realização das refeições e a enorme oferta de produtos pobres nutricionalmente e calóricos, favorecem a adoção de uma dieta inadequada. A alimentação do brasileiro apresenta um déficit de diversos micronutrientes vitais. A essa situação é atribuído o nome de "fome oculta", uma fome que não está vinculada à pobreza ou à desnutrição, mas sim a uma escassez gradativa de nutrientes, especialmente dos sais minerais e vitaminas, que têm um papel importante nas reações químicas e funções metabólicas do corpo. Esse desequilíbrio nutricional favorece uma série de complicações a curto e longo prazo - desde anemia, fadiga, mudança de humor, perda de concentração até maior suscetibilidade a infecções, depressão, osteoporose, hipertensão, entre outras doenças sérias - e pode prejudicar muito a qualidade de vida.

Além disso, alguns estudos têm demonstrado, que mesmo uma alimentação saudável pode não atingir os altos valores sugeridos de ingestão para determinados nutrientes, como o cálcio e o ferro. Nos dois casos, a possibilidade do uso de suplementação tem como objetivo suprir a quantidade necessária. Outras vitaminas podem ser suplementadas de forma adequada, quando existir risco de ingestão ou mal-aproveitamento dos nutrientes pelo organismo.

O USO DE SUPLEMENTOS VITAMÍNICOS OFERECE BENEFÍCIOS QUANDO É INDICADO E ACOMPANHADO POR ESPECIALISTAS

Portanto, quando não é possível suprir as necessidades orgânicas ou você está enquadrado em situações especiais (possui intolerância a determinados alimentos, é gestante, lactante ou portador de certas doenças crônicas, por exemplo), poderia, sim, recorrer aos suplementos. Desde que, antes, busque uma orientação e um acompanhamento médico ou nutricional e que sejam respeitados os limites de tolerância de cada nutriente.

O Comitê de Alimentação e Nutrição (Food and Nutrition Board), da Academia Nacional de Ciências de Washington (EUA), propõe que esses limites sejam baseados em alguns valores - chamados UL, sigla correspondente a Tolerable Upper Intake Level, que se referem aos maiores níveis de ingestão habitual de nutrientes e não oferecem riscos de efeitos adversos à saúde. Não são recomendações, tratam-se apenas de níveis de ingestão com alta probabilidade de serem tolerados biologicamente.

Afinal, sabe-se que tanto a ausência quanto as doses exageradas de nutrientes podem causar danos ao organismo. Estudos mostram que uma determinada vitamina pode prevenir alguma carência. Mas, se consumida em excesso, pode provocar um problema clínico ainda mais grave do que a carência. Conseqüentemente, megadoses de suplementos em indivíduos já doentes implicarão em maior ocorrência dos sintomas e até no aumento do risco de morte - como provavelmente foi o caso dos pacientes analisados no estudo citado no início desse artigo.

Por isso tudo, desde quse a tentativa contínua e persistente de adoção de práticas alimentares saudáveis se mantenha. O uso de suplementos vi tamínicos equilibrados, com acompanhamento, em doses corre tas, com ple mentando a alimentação e em situações especiais, pode ser seguro e benéfico.

FOTO: ARQUIVO PESSOAL MAURO FISBERG, PEDIATRA, NUTRÓLOGO, COORDENADOR CLÍNICO DO CENTRO DE ATENDIMENTO E APOIO AO ADOLESCENTE DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

 


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