
Encontrei certa vez, antes de uma missa de bodas de prata a que fui convidada, uma certa Maria das Dores. Ambas esperávamos, fora da igreja, a cerimônia começar. Acabamos conversando e ela então me revelou que havia completado cem anos. - Cem anos? Como conseguiu chegar a essa idade? - perguntei, sem conter a curiosidade.
- Como? - retorquiu rindo - Vivi muito, porque aprendi a ser feliz! Ali estava uma coisa importante. Quis saber se ela tinha algum tipo de "receita" para a felicidade.
- Ora, basta ser um cisne, em vez de ser rato ou barata! - afirmou com segurança.
- Explique, por favor - falei, surpreendida.
- Ora, a barata é a tal "barata tonta". Ela não pára e não sabe por onde ir. Gente ansiosa, que não se aquieta e vive num desespero.
- E o rato? - perguntei.
Ela riu: - É aquele "rato de loja", como se diz, que acha que para ser feliz tem que comprar alguma coisa. Se ilude pensando que a sua felicidade está numa certa casa ou automóvel. Já o cisne... Você deve conhecer a história do "patinho feio"...
- Sim. Ele queria ser um belo pato, mas não conseguia, porque na realidade não era pato, era um cisne - relembrei.
- Pois então. O cisne descobre que não deve ficar tentando seguir o caminho dos outros, não deve imitar os outros. Percebe que na realidade ele é único e precisa achar algo que verdadeiramente lhe dê alegria e realização. Compreendeu? Ser feliz é ser cisne, em vez de barata ou rato. Eu aprendi a ser feliz, sendo cisne.
- Mas e se alguém for um pouco barata, que saída pode ter?
- perguntei ainda.
- Ah, a barata precisa saber parar.
Assim, irá ver que se pode ser feliz aqui e agora, sem se agitar tanto. Assim como o rato precisa ver que geralmente a questão não é "ter", mas "estar": estar em paz, estar em boa companhia... Parti, claro, para uma consulta pessoal:
- E eu? Como poderia chegar a ser cisne?
- Procure o que realmente lhe agrada. Mas não vai feito "barata tonta", vai com cuidado, com calma... Se não der certo é porque aquilo não combina com você. E enquanto você procura o que quer, tente ao mesmo tempo ser feliz já no caminho, com aquilo que você tem e onde você está. Isso é o principal. Compreendeu?
- Acho que a senhora é bem sábia...
- Não. Sou apenas mineira e caipira...
- disse ela, e foi entrando na igreja, sozinha com sua bengala, porque a missa já ia começar e ela era convidada... de Deus.