Em 1861, o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) publicou um ensaio que causou frisson na época. Paraísos Artificiais narrava não só suas experiências com haxixe e ópio como ainda tratava das motivações das pessoas que procuravam refúgio nos tóxicos e o prazer da satisfação momentânea, em contrapartida à realidade. Mais de um século depois, uma outra obra tem provocado repercussão parecida - mas que nada tem a ver com plantas alucinógenas. O livro felicidade Artificial (Editora Planeta), do médico anestesiologista norte-americano Ronald W. Dworkin, é uma crítica ferrenha ao uso de antidepressivos como condutores de um estado de felicidade imaginária e passageira. Segundo o autor, a utilização sem necessidade ou prescrição desses medicamentos, desde os anos 1990, tem gerado uma multidão de pessoas alienadas. Afinal, a sensação de torpor acaba, mas os problemas continuam. "O que caracteriza a felicidade artificial é seu poder de se opor à vida. Quando desfrutam dessa felicidade, as pessoas conseguem não se sentir miseráveis, mesmo quando a vida é miserável. (...) Não importa o quanto as coisas fiquem ruins, a felicidade artificial faz as pessoas sempre se sentirem bem; você jamais conseguirá incutir nelas o sentimento de total desesperança", escreve Dworkin.
Ser feliz é...
Para o especialista, a felicidade provocada pelos antidepressivos é traiçoeira, pois impede os indivíduos de enxergar a realidade como ela se apresenta e, ainda, de lidar com ela. "Às vezes, as pessoas precisam de uma massa crítica de infelicidade para empurrá-las para fora de uma má situação de vida, dando-lhes, desse modo, outra chance para serem felizes; as pessoas artificialmente felizes perdem esse impulso para a mudança", avisa o autor.
Infelizmente, hoje, em dia, paira no ar a sensação de que para alcançar a felicidade as pessoas precisam ser belas, magras, bem-sucedidas, equilibradas e famosas. "Essas características nada mais são do que modismos impostos pela sociedade de consumo, através dos meios de comunicação, que acarretam frustrações pessoais e profissionais, além de problemas psicológicos, como a depressão", comenta a psiquiatra e psicóloga Vera Lemgruber, chefe de psicoterapia do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Segundo Vera, a constante insatisfação tem levado as pessoas a buscar cada vez mais recursos substitutos
para alcançar a sensação de perfeição - cirurgias plásticas, tratamentos estéticos, dietas e, sobretudo, medicamentos. "Se a pessoa está buscando quimicamente uma maneira de ser feliz, já é um indicativo de que não está bem. Dependendo do caso, pode ser necessário até o uso de uma medicação, mas somente sob avaliação e prescrição médica. A automedicação pode levar à intoxicação", explica José Paulo Pinotti, psiquiatra do Hospital e Maternidade São Camilo, de São Paulo.
"Quem não precisa de fato dos remédios não deve tomá-los, pois seu uso desnecessário só traz danos em vez de vantagens", destaca o médico.
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