Viva Saúde
Edição 43 - Março/2007
 
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a visão médica sobre assuntos polêmicos
  Sexualidade e afeto sem preconceito

Os estudos sobre sexualidade e deficiência têm sido aprofundados na última década, despertando o interesse não só de pais e professores de pessoas deficientes, mas também de todos os envolvidos no contexto educacional. Apesar da complexidade da questão, é consenso entre os especialistas afirmar que todas as pessoas são sexuadas e, portanto, não devemos considerar a sexualidade do indivíduo com deficiência como um fenômeno atípico.

É bom lembrar que sexualidade é um conceito amplo que envolve, além de sexo, sentimentos, afetos, identidade de gênero, emoção, desejo, erotismo, entre outros aspectos. Cada um de nós expressa a sua sexualidade de forma diferente. Assim, uma pessoa pode não realizar o ato em si, porém sentirá o mesmo prazer.

Os eventuais problemas da vida sexual em relação ao desejo, ereção peniana, lubrificação vaginal, orgasmo, etc, independem da existência de uma deficiência. Por que então, em geral, enfatizamos as dificuldades e os limites da expressão da sexualidade quando tratamos dessa população?

O sexo é um fenômeno biológico, psicológico e social. Em decorrência de limitações orgânicas, às vezes será necessário algumas adaptações para que haja a expressão plena da sexualidade em pessoas especiais.

Mas, nos âmbitos psicológico e social, há um conjunto de atitudes e posturas, como preconceito, desinformação, discriminação, inabilidade, processo inadequado de educação sexual familiar, descrédito na capacidade dos deficientes em expressar sentimentos e desejos sexuais ou mesmo concepções distorcidas sobre o tema, que acabam provocando limitações ainda maiores.

O autoconhecimento, a auto-representação da imagem corporal e a auto-estima são características que devem ser consideradas. Na infância, é comum o descobrimento do corpo, do prazer, das diferenças físicas entre meninos e meninas, da masturbação individual, dos jogos sexuais, etc.

NÃO É O ATO SEXUAL EM SI QUE LEVA AO PRAZER, POR ISSO ELE INDEPENDE DAS CONDIÇÕES FÍSICAS. AS SENSAÇÕES ESTÃO NA CABEÇA E REFLETEM POR TODO O CORPO E NÃO SÓ EM PARTE DELE

Infelizmente, a ocorrência dessas descobertas parece ser uma questão mais complexa quando se trata de alguém com deficiência. Pais e/ou professores costumam controlar e até mesmo reprimir a sexualidade destas pessoas com a intenção de protegê-las.

Um outro problema é o padrão estético imposto pelos meios de comunicação que acaba “abalando” a auto-estima de muitas pessoas, principalmente aquelas que já carregam outros tipos de preconceitos por terem alguma deficiência.

Então, como aceitar a identidade pessoal e expressar a afetividade? Como desenvolver uma imagem corporal adequada sem se influenciar por preconceitos ou discriminações?

Manifestar a sexualidade, amadurecer fisicamente, psicologicamente e socialmente são questões complicadas para qualquer pessoa, portanto não podemos dizer que eles são os únicos ou mais propensos a sentirem algum tipo de problema quando estiverem, finalmente, apaixonados.

A possibilidade de obter alguma felicidade no exercício da sexualidade depende de um processo de educação sexual que inclua uma crítica aos padrões socialmente impostos, tanto para pessoas com deficiência quanto para os não-deficientes.

Por isso, nos parece fundamental investir em programas de orientação sexual e no esclarecimento dos educadores e dos familiares, para que a população portadora de deficiências possa receber o auxílio necessário para o desenvolvimento satisfatório da sexualidade e da diminuição do preconceito e da discriminação.

ANA CLÁUDIA BORTOLOZZI MAIA, MESTRE EM EDUCAÇÃO ESPECIAL PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS
FOTO: ARQUIVO PESSOAL


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