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Edição 43 - Março/2007
 
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  Os riscos de trocar o dia pela noite
Seja por necessidade profissional, seja porque simplesmente gostam, muitas pessoas ficam ativas na madrugada. Especialistas explicam os danos causados por este hábito e como os notívagos devem se cuidar

POR EULINA OLIVEIRA ILUSTRACAO BUSSADORI

Já reparou que enquanto a maioria dorme à noite, uma parcela da população está em plena atividade? A vida noturna está em grande expansão nos últimos anos, com a ampliação de serviços 24 horas, como supermercados, pet shops, floriculturas, restaurantes, entre outros. Além dos trabalhadores noturnos, há quem prefira, por questões pessoais e genéticas, ficar acordado durante a madrugada, seja em casa ou na rua.

O jornalista e estudante de direito Rodrigo Luchiari, 32 anos, de São Paulo, por exemplo, dorme apenas quatro horas por noite. Normalmente, durante a semana, ele vai para a cama entre 3 e 4 horas e acorda entre 7h30 e 8 horas para ir à faculdade. “Durmo tarde desde pequeno e não sinto sono”, afirma Luchiari. Mesmo nos fins de semana, ele dorme pouco. “Só vou dormir quando a energia acaba mesmo”, diz o jornalista. “Às vezes, passo a madrugada estudando e vou direto para a faculdade fazer provas”, conta. Apesar de dormir pouco, fumar e não fazer atividade física, ele garante que adoece pouco. No entanto, preocupado com a saúde no futuro, Rodrigo quer largar o cigarro e também melhorar a qualidade de seu sono.

A inquietação do jornalista é pertinente. De acordo com os especialistas, essa inversão de horários realmente é um fator prejudicial à nossa saúde.

“Nós fomos biologicamente programados para dormir à noite”, explica a pneumologista Lia Rita Azeredo Bittencourt, presidente da Sociedade Brasileira de Sono. De acordo com Lia, a ausência de luz, a queda de temperatura do corpo e a secreção da melatonina (um neuro-hormônio responsável por regular o sono) são fatores que ocorrem nesse período e contribuem para o descanso. “Pesquisas demonstram que, durante o dia, as pessoas dormem menos e com menor qualidade, já que o sono costuma ser mais fragmentado”, enfatiza.

As conseqüências para o organismo humano são imediatas: fadiga, sonolência durante o dia, déficit de atenção, de memória e raciocínio, além de predisposição a problemas cardiovasculares e metabólicos.

“O notívago pode ter hipertensão arterial, arritmias e outras doenças cardíacas, devido ao aumento de substâncias estressoras (catecolaminas) no organismo e por não haver descanso fisiológico suficiente do sistema cardiovascular, ou seja, a redução da pressão arterial e da freqüência cardíaca que ocorre à noite”, alerta a pneumologista.

Quem não dorme à noite ainda pode desenvolver predisposição à obesidade, pela dificuldade de ação da leptina (hormônio da saciedade), e ao diabetes, pela maior resistência à ação da insulina. As alterações metabólicas dos lipídios ainda podem aumentar o “mau” colesterol (LDL).

Segundo informações da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), as doenças mais freqüentes em quem trabalha à noite são as de origem gastrintestinal (como azia, má digestão, úlceras gástricas, irritações do cólon e dificuldades em manter a regularidade intestinal), além das ligadas ao sistema cardiovascular. Pesquisas revelam também uma maior possibilidade de desenvolvimento de câncer de mama e de colorretal nesses profissionais. Há outros estudos, indicando que os riscos de acidentes aumentam com o trabalho noturno, particularmente se a jornada for prolongada.

O que pode ser pior
Mas ir para a cama todo dia em horários diferentes é ainda muito pior. É o que ocorre com o assistente de segurança alfandegário Everton da Silva Florencio, de 31 anos, que trabalha em sistema de turnos no Porto de Santos (SP). A cada semana, ele muda o horário de trabalho: em uma, ele começa a trabalhar durante a noite; na outra, pela manhã; e na terceira, à tarde. Conseqüência: ele não consegue ter um horário certo para dormir. “Eu não tenho problemas de insônia; tenho sono pesado e durmo no horário que for preciso”, acredita Florencio. “Mas, na semana em que passo a madrugada acordado, me sinto muito mais cansado”, admite. “Se eu pudesse, só começaria a trabalhar pela manhã, pois acredito que sou muito mais produtivo nesse horário do que em outros”, afirma.

“Quem, mesmo não dormindo à noite, mantém a regularidade nos horários de sono, não sofre tanto quanto aquele que tem ritmo irregular”, avisa o neurologista Luciano Ribeiro Pinto Jr., pesquisador do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

De acordo com o especialista, a regularidade é importante para a manutenção do ritmo circadiano (de 24 horas) do organismo. Esse ciclo é determinado pelos centros (células) do chamado relógio biológico, localizados no cérebro. São essas células que, de forma harmônica e de acordo com o horário, anunciam como o organismo humano deve se comportar — quais hormônios devem ser produzidos, quando as células de determinados tecidos devem se dividir, qual a concentração de enzimas que deve haver em certo momento...

Os ritmos internos do nosso organismo são sincronizados por marcadores externos, como a variação da luz, os momentos em que a pessoa está em atividade (trabalhando, comendo, etc) e a hora em que ela vai dormir.

A temperatura corporal, por exemplo, é determinada pelo ritmo circadiano — aumenta durante o dia e atinge o seu máximo no fim da tarde, iniciando uma queda lenta e gradual após às 18, 19 horas e alcançando o seu mínimo no meio da madrugada. A variação de temperatura oscila entre 1 e 1,5 graus entre a mínima e a máxima. Também há uma pequena queda da temperatura entre 11 e 14 horas, que também corresponde ao horário do almoço.

É justamente porque a temperatura corporal está mais baixa que o ser humano sente sono durante a madrugada. Quando a pessoa passa várias noites acordada e dorme durante o dia, a curva da temperatura se altera, não subindo muito durante o dia, nem descendo muito à noite.

Como a temperatura não diminui na intensidade ideal durante o dia, a pessoa tem dificuldade em cair no sono e mantê-lo. A presença de luz nesse horário atrapalha ainda mais o descanso — pois é no escuro que o corpo produz o hormônio melatonina, regulador do sono.

Dormir cada dia em um horário diferente deixa o relógio biológico mais confuso. É por isso que o ser humano deve se habituar a dormir sempre nos mesmos horários, ainda que durante o dia. “Se o sono não ocorre na hora ideal, pelo menos que seja regular”, conclui Ribeiro Pinto (Unifesp).

UM QUARTO DAS PESSOAS QUE TRABALHAM À NOITE DESENVOLVEM DISTÚRBIOS DE SONO. AS VÍTIMAS SÃO AQUELAS QUE, POR FATORES GENÉTICOS, IDADE, PROBLEMAS DE SAÚDE, USO DE DROGAS E MEDICAÇÕES, NÃO SE ADAPTAM AO PERÍODO NOTURNO

10 FORMAS DE PROTEGER A SAÚDE DOS NOTÍVAGOS
É possível minimizar os prejuízos à saúde causados pela vida noturna, seguindo os conselhos dos especialistas:

1. Durma sempre nos mesmos horários, mesmo nos dias de folga, para não afetar ainda mais o relógio biológico.
2. Mesmo durante o dia, durma sem interrupções uma quantidade de horas mínima para o seu bem-estar — de seis a oito horas.
3. Deixar o quarto escuro ajuda a dormir melhor. Feche janelas e cortinas, mas mantenha o ambiente arejado, porque o calor também atrapalha o sono.
4. Use protetores de ouvidos, por conta do barulho feito durante o dia.
5. Para que os trabalhadores noturnos não sintam sono à noite, é só tirar um cochilo algumas horas antes de ir trabalhar.
6. Se puder, cochile no meio da madrugada, mesmo que por poucos minutos.
7. Avise sua família que ela precisa colaborar para a manutenção de um ambiente tranqüilo para você dormir bem durante o dia.
8. Apesar de ser difícil, quem fica acordado à noite não deve se descuidar da alimentação, para não atrapalhar ainda mais o sono durante o dia. É importante consumir vegetais ricos em fibras, muitas frutas e pouca gordura. Também é preciso fazer as três principais refeições (café da manhã, almoço e jantar) em horários adaptados. Antes de dormir, deve-se ingerir uma refeição leve.
9. Evite tomar refrigerantes com cafeína, café, chá preto ou mate, tanto durante o trabalho noturno quanto antes de dormir.
10. Praticar exercícios físicos regulares, evitar o fumo e o álcool e manter o peso também são medidas importantes.

FONTE: LIA RITA AZEREDO BITTENCOURT, LUCIANO RIBEIRO PINTO JR. E ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE MEDICINA DO TRABALHO (ANAMT)

CÂNCER DE MAMA E TRABALHADORAS NOTURNAS
Estudo realizado pelo Instituto do Câncer Epidemiológico, da Dinamarca, com sete mil voluntárias, de 30 a 54 anos, sugere que as mulheres que trabalham no período noturno têm 50% mais risco de desenvolver o câncer de mama. Os pesquisadores constataram uma maior incidência de tumores malignos de mama entre aquelas que trabalharam durante a noite, por pelo menos seis meses.
No entanto, não foi comprovada a causa da relação entre a doença e o trabalho noturno, mas alguns médicos acreditam que a exposição à luz artificial durante a noite pode provocar alterações hormonais que aumentam o risco.
Outra pesquisa, realizada pela Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, mostra que o trabalho noturno durante os três primeiros meses de gravidez aumenta em 50% o risco de parto prematuro. Os pesquisadores acreditam que isso possivelmente se deve à interrupção da atividade normal do útero durante a noite.

APROXIMADAMENTE 10% DA POPULAÇÃO É VESPERTINA: POR RAZÕES GENÉTICAS, ESSAS PESSOAS SE SENTEM MAIS DISPOSTAS AO ANOITECER E PREFEREM ACORDAR MAIS TARDE

 


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