Em relação à cirurgia plástica, uma das técnicas de grande repercussão hoje no país é a chamada bioplastia. A famosa (e polêmica) "plástica sem cortes" tem sido divulgada com falsas promessas de ser um procedimento sem riscos e de baixo custo para preencher rugas, ganhar volume nas maçãs do rosto ou depressões da face - preencher pequenos orifícios causados por acne, por exemplo - e para modelar o corpo de forma definitiva.
A técnica ainda está sob avaliação científica, pelos riscos de efeitos adversos, principalmente quando usada em grandes doses. De tão controversa, ela já foi alvo de um alerta público do Conselho Federal de Medicina.
A substância usada na bioplastia (o polimetilmetacrilato - PMMA) é aplicada pela medicina, desde os anos 50, em próteses de quadril e, posteriormente, para implantes intraoculares. Só recentemente passou a ser utilizado em tratamentos estéticos em concentrações de 2%, 10% e 30%, mas indicado sempre para correção de pequenos defeitos.
Uma microcânula, espécie de agulha com a ponta arredondada, é introduzida sob a pele para injetar o PMMA nos tecidos do corpo - não há cortes. Para isso, usa-se a anestesia local. No entanto, a substância deve ser injetada, preferencialmente, de maneira profunda, mais próxima aos ossos. Esta é a forma mais indicada para a realização da bioplastia, já que o PMMA injetado pode apresentar consistência dura como um plástico e, quando aplicado nos tecidos moles, pode adquirir a aparência rígida de um cisto (nódulo). Nestas condições, a técnica tem sido usada no Brasil experimentalmente e, com sucesso, para preenchimento facial em pessoas portadoras do HIV, no tratamento da lipodistrofia facial - uma redistribuição da gordura corporal que deixa rosto, pernas, braços e nádegas finos, e abdômen, nuca e tórax com concentração excessiva de gordura, causando uma desfiguração do paciente.
A BIOPLASTIA AINDA PRECISA DE COMPROVAÇÃO CIENTÍFICA. ENTRE OS EFEITOS ADVERSOS DA TÉCNICA ESTÃO INFECÇÕES, NECROSE E ATÉ CEGUEIRA
Além dos fins estéticos, a bioplastia poderia ser usada, com bastante eficácia, como uma substituta para próteses sintéticas na correção de pequenos defeitos ósseos em locais como mandíbula, queixo e nariz. Não há alternativa melhor, por exemplo, para se fazer retoques em um nariz que acabou de passar por uma cirurgia plástica, mas que apresenta pequenas depressões -- aliás a técnica é indicada para 90% desses casos. Contudo, os riscos da técnica (como infecções) e a falta de estudos científicos sobre ela precisam ser conhecidos pela população. O produto é até bem tolerado pelo corpo humano, o problema é que ele não é absorvido.
Caso a substância seja mal-aplicada e atinja a região de vasos sangüíneos, há o risco de ela entupir (provocar a embolia) ou mesmo comprimir uma artéria, causando a necrose (morte de pele e músculos) de parte dos tecidos próximos. Isso pode levar inclusive à cegueira, se uma artéria oftálmica for obstruída. Há ainda a possibilidade de infecções (imediatas e tardias) e formação de nódulos (o organismo pode encarar o PMMA como um corpo estranho e encapsulá-lo).
Vale lembrar ainda que o tratamento é permanente e, como o produto se mistura aos tecidos do corpo, nem sempre pode ser retirado. Sua extração só é feita por meio de cirurgia. Se, mesmo sabendo dos riscos você preferir a bioplastia a uma terapia estética alternativa, certifique-se de que irá realizá-la com um médico especializado e treinado (recomendamos os que possuem títulos de especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica). É preciso ter em mente que, em nome da beleza, as pessoas não podem abrir mão da segurança.
| ANTONIO GRAZIOSI, PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA, REGIONAL - SÃO PAULO |
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