Em certas situações de emergência, o nervosismo pode im pedir o paciente ou a família de discordar da opinião do médico. No caso da enfermeira Patrícia Hirata, de 26 anos, moradora de São Paulo, a sabedoria da mãe impediu que ela fosse submetida a uma cirurgia desnecessária, prescrita a partir de um diagnóstico errado.
Há dois anos, Patrícia começou a sentir fortes dores na região do pulmão esquerdo, além de tonturas, calafrios e febre. Ela foi a um pronto-socorro em Guaianases, zona leste de São Paulo, por meio de seu convênio médico.
"Após esperar muito tempo, fui atendida por um médico que não me deu atenção. Ele me passou uma medicação e disse para eu retornar para casa", conta. "No dia seguinte, acordei com convulsões e desmaiei. Voltei ao pronto-socorro e acabei sendo atendida pelo mesmo médico, que afi rmou então que eu estava com hemorragia abdominal e teria que operar o baço", acrescenta.
De acordo com Patrícia, sua mãe não concordou com o diagnóstico e não deixou que ela fosse operada. "Ela sabia que não poderia ser isso, mesmo porque as dores intensas que sentia eram no pul mão. Como eu tenho asma, ela tinha certeza de que meu problema estava ligado ao sistema respiratório, e não ao baço".
O Ministério da Saúde iniciou em 1994 o programa Saúde da Família, no qual multiprofi ssionais que trabalham em unidades básicas de saúde se responsabilizam pelo acompanhamento de um número defi nido de famílias. Mas há poucos médicos especializados no país. Para preencher esse vácuo, foi criada a Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa), que promove cursos de capacitação e programas de residência médica nessa área
Prescrição médica
- Procure buscar por um profi ssional que se torne o seu médico de confi ança. Ele deve conhecer todo o seu histórico de saúde, além de ser uma pessoa a quem você possa recorrer sempre que houver necessidade.
- Não deixe de perguntar ao médico tudo o que você quer saber sobre o seu diagnóstico ou tratamento. Por outro lado, o profi ssional tem que se dispor a tirar todas as dúvidas do paciente, ser atencioso e aberto.
- Se você achar que deve buscar a avaliação de outros especialistas sobre o seu caso, fale com o seu médico. Em determinadas situações, o próprio profi ssional o encaminhará para a avaliação de outros colegas.
- Em situações de emergência, se você não confi ar no tratamento prescrito no pronto-socorro (como uma cirurgia), recorra a seu médico de confi ança ou peça transferência para outro hospital, se houver tempo hábil.
- A relação médico-paciente é baseada na confi ança. Se você não se sente seguro quanto ao atendimento que está sendo prestado, não hesite em trocar de médico.
A enfermeira foi transferida para outro hospital, onde deu entrada diretamente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Após um raio X, o no vo médico que a atendeu descartou a hemorragia abdominal e apontou a existência de água acumulada e infecção na pleura (membrana que recobre o pulmão). Foi realizada então uma cirurgia para a colocação de um dreno no tórax (para eliminar o líquido acumulado) e prescritos antibióticos.
Para Patrícia, a decisão de sua mãe de procurar outro atendimento foi a sua salvação. No caso do primeiro médico, faltou ele ouvir a paciente para coletar informações importantes. "Não me lembro nem de ele ter me examinado na primeira vez em que fui atendida." Segundo a enfermeira, como no fi m tudo deu certo, ela nem cogitou em processar o primeiro hospital. Mas recomenda: "Na dúvida, nunca deixe de ouvir uma outra avaliação médica."
O outro lado
Quando se fala em consultar mais de um médico sobre um tratamento ou doença, as opiniões divergem. Há especialistas que defendem que o paciente tem o direito de ouvir quantos médicos achar necessário, enquanto outros acreditam que, se pairam dúvidas, é porque não se confi a no profi ssional. O fato é que muitas pessoas se sentem perdidas, quando há incerteza em relação aos procedimentos a serem realizados. Elas temem uma reação negativa do primeiro médico e, ouvindo opiniões diferentes sobre o mesmo problema, podem até fi car mais confusas. O que fazer nesses casos, então?
Para Pablo Gonzalez Blasco, diretor-científi co da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa), a questão é encontrar um profi ssional de confi ança. "Se a pessoa achar que deve ouvir uma segunda opinião é porque não confi a no médico", afi rma. "Nesses casos, a solução é simplesmente trocar de especialista."
Blasco responsabiliza a própria categoria por essas situações. "O problema é que, por falta de vocação, boa parte dos médicos não está comprometida com seus pacientes", diz. "É realmente difícil, atualmente, encontrar um profi ssional de confi ança, pois faltam especialistas com sensibilidade para lidar com pessoas e que não sejam apenas conhecedores de doenças."
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