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Edição 42 - Março/2007
 
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  Montanha-russa de emoções
É assim que vive quem tem transtorno bipolar do humor, distúrbio que alterna crises de euforia e depressão. O mal pode ser controlado, mas antes a vítima precisa obter um diagnóstico preciso e aprender a driblar o preconceito

POR STELLA GALVÃO ILUSTRAÇÃO MG STUDIO FOTOS FERNANDO GARDINALI

Como as faces de uma moeda ou as tradicionais máscaras do teatro. De um lado o riso, a comédia, o exagero. Do outro, o choro, o drama, o recolhimento. Por esses sintomas, que aparecem em crises alternadas de euforia e depressão, o transtorno bipolar do humor vem chamando cada vez mais a atenção da classe médica por sua freqüência. O distúrbio acomete, segundo dados norte-americanos, entre 0,5% a 1% da população mundial e pode manifestar- se na adolescência ou em uma fase mais madura, sem distinção entre homens e mulheres. Mas, estima-se que formas mais leves do transtorno possam afetar até 4% da população - no Brasil, esse percentual equivaleria a aproximadamente nove milhões de pessoas.

"É como se minha vida fosse magicamente dirigida por duas correntes elétricas: contente positiva e desesperançada negativa - a que estiver em ação no momento domina minha vida, inunda-a. Agora, estou inundada de desespero, quase histérica, como se estivesse sufocando. Como se uma grande coruja musculosa estivesse sentada em meu peito." SYLVIA PLATH (1932-1963), BIPOLAR, A FAMOSA ESCRITORA NORTE-AMERICANA SUICIDOU-SE AOS 30 ANOS

O problema já foi retratado até em filme. Em Mr. Jones, película lançada em 1993, o ator Richard Gere interpreta um homem que alterna fases de extrema alegria e tristeza. Durante os episódios de mania (a fase bipolar em que predominam sintomas de felicidade e empolgação excessivas), o personagem é divertido, criativo e envolvente, mas de repente choca a platéia que assiste a um concerto, subindo ao palco para reger uma sinfonia de Beethoven. O distúrbio de Mr. Jones é o pano de fundo para uma história romântica. A psiquiatra Li bbie Bowen (Lena Olin), designada para tratar o caso, é atraída pelo paciente, com quem passa a viver um tórrido romance, em um tipo de relacionamento que provoca desconforto no meio psiquiátrico e psicoterapêutico. Nas descrições do filme em videolocadoras, o personagem de Richard Gere é um "autodestrutivo que é salvo pelo amor".

Essa versão cinematográfica, longe de esclarecer, mostra o transtorno bipolar de modo estereotipado.

"Quando a euforia aparece, o bipolar se torna um aventureiro. Nunca sei se os perigos que enfrentei foram por conta de meu jeito de olhar a vida ou pela euforia que tomou conta dela. É difícil separar o que faz parte de mim e o que faz parte da doença"
MARINA W, NO LIVRO "NÃO SOU UMA SÓ: DIÁRIO DE UMA BIPOLAR" (ED. NOVA FRONTEIRA)

Na realidade, o distúrbio ainda é difícil de ser diagnosticado, e o tratamento tardio, aliado ao preconceito (pela falta de conhecimento das pessoas), pode causar conseqüências graves, tanto físicas quanto psicológicas.

Os altos e baixos na vida real

"Quando a euforia aparece, o bipolar se torna um aventureiro. Nunca sei se os perigos que enfrentei foram por conta de meu jeito de olhar a vida ou pela euforia que tomou conta dela. É difícil separar o que faz parte de mim e o que faz parte da doença" MARINA W, NO LIVRO "NÃO SOU UMA SÓ: DIÁRIO DE UMA BIPOLAR" (ED. NOVA FRONTEIRA)

"Na primeira consulta, o doutor Olavo, meu psiquiatra, perguntou se os meus dois médicos anteriores tinham dito que eu era bipolar. Respondi que sim, embora tenham demorado muito a chegar a esta conclusão.

A maior parte das pessoas que tem depressão é tratada como se fosse unipolar, quando na verdade não é. Isto faz um estrago enorme, o mesmo que qualquer outro diagnóstico errado: é como se uma pneumonia fosse tratada como uma gripe comum. Normalmente, demora-se, em média, dez anos para que o bipolar seja diagnosticado de maneira correta. Comigo também foi assim." O depoimento é da jornalista Adriana Resende, que lançou em novembro passado o livro Não Sou Uma Só: Diário de Uma Bipolar (Ed. Nova Fronteira), sob o pseudônimo Marina W.

A dificuldade do diagnóstico é confirmada pelo professor titular do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Alberto Del Porto. "É preciso reconstituir cuidadosamente os antecedentes do paciente, mas freqüentemente os médicos costumam tratar apenas o estado momentâneo que ele apresenta (e que pode durar alguns anos)." Ou seja, se a pessoa está na fase depressiva, é tratada unicamente como tal. E, se está na eufórica, pode ser declarada psicótica e até ser internada em hospital psiquiátrico.

Ser internado pelo excesso da crise, aliás, foi o que aconteceu com Alexandre Fiuza, de Florianópolis (SC). Na sua primeira hospitalização, após duas tentativas de suicídio, a causa apontada pelos médicos foi depressão severa. Na segunda, em 2005, ele foi internado na fase de mania (euforia), quando finalmente obteve o diagnóstico correto.

"O médico tratou-me pela primeira vez como um bipolar, cortando os antidepressivos que tomava e substituindo-os por reguladores de humor", relata. "O diagnóstico e tratamento corretos foram os divisores de água em minha vida".

Alexandre é autor do livro Digerindo a Bipolaridade, lançado recentemente em edição independente e elaborado com a consultoria de dois psiquiatras e com depoimentos de pessoas que se reúnem em várias comunidades para trocar idéias sobre o assunto no site de relacionamentos Orkut.

Sua obra, que já está na segunda edição, é sucesso na internet, por falar abertamente dos sintomas, das dificuldades para obter o diagnóstico e dos resultados obtidos com o tratamento. Além de trazer depoimentos de médicos e pacientes, o livro sacia uma necessidade crescente de esclarecer tudo que se relaciona ao transtorno.

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