Viva Saúde
Edição 40 - Fevereiro/2007
 
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Gente que deu a volta por cima
  "Fiquei revoltado com o diagnóstico, mas decidi enfrentá-lo"
Para mudar os hábitos alimentares e controlar o diabetes, o jornalista Marcus Frediani, de 47 anos, precisou primeiro aceitar que tinha um problema de saúde

POR ANA PRIMO

FOTO: ARQUIVO PESSOAL
Ele só procurou ajuda quando a doença afetou o seu trabalho
" Apesar de apresentar um histórico familiar da doença, jamais imaginei que teria diabetes. Mas, aos 42 anos, após um exame de rotina, recebi a notícia: eu era o mais novo diabético do pedaço. O médico me comunicou o diagnóstico de forma muito branda. Em seguida, me entregou uma tabela restritiva de alimentos que eu deveria adotar a partir dali e que, praticamente, reduzia minha dieta a algumas folhas de alface e outros itens que considerava insossos. Fiquei revoltado e, confesso, não dei muita bola para aquilo tudo. Afinal, apesar de estar uns 20 quilos acima do meu peso ideal, de levar uma vida absolutamente sedentária e de ter o estresse como meu 'amigo do peito' (melhor seria dizer inimigo, não é?), eu me sentia muito bem. Então, depois de sair do consultório, resolvi ignorar totalmente a doença.


Só três anos mais tarde comecei a sofrer as conseqüências desse meu desleixo com a saúde. Em três meses, sem fazer qualquer regime, emagreci 22 quilos - de 100 quilos para 78 quilos. A princípio, achei o máximo voltar a usar os números de camisa e calça que usava quando tinha 20 e poucos anos. O emagrecimento turbinou minha auto-estima. O problema é que logo depois da perda rápida e injustificada de peso - um sintoma clássico do diabetes - vieram outras mudanças nada agradáveis: boca seca, uma sede absurda, incontáveis visitas ao banheiro para urinar e, o que achei mais grave, uma tremenda perda de pique e um cansaço inexplicável. Aí foi demais para mim. A doença começava a me impedir de virar noites e fim de semana trabalhando, o que sempre foi comum na minha profissão de jornalista.

Resolvi consultar uma outra endocrinologista que me pediu exames de rotina. Depois de olhar meus níveis altíssimos de glicose no sangue, a médica não "pegou leve" na hora de me explicar o resultado. Ela foi clara, dura e objetiva ao dizer que, se eu não mudasse meus hábitos radicalmente, não demoraria muito tempo para eu ficar cego, ter partes de meu corpo amputadas e, naturalmente, morrer daquilo. Revoltei-me de novo, mas, desta vez, não com a doença e sim com a doutora. Como ela podia dizer que eu tinha de abandonar, de uma hora para outra, meus biscoitinhos prediletos, meus doces, meus pãezinhos, minhas batatinhas fritas ou meus oito pedaços de pizza por refeição e incluir frutas e café sem açúcar no desjejum? Quanta insensibilidade!

Parti para a briga

Não havia mais como negar que o meu corpo estava no limite e precisava de cuidados. A ficha acabou caindo e comecei a fazer o que tinha que ser feito. Mudei radicalmente meus hábitos alimentares, comecei a fazer ioga e academia e, é claro, a cuidar melhor do meu visual. Passei a buscar qualidade de vida e valorizar mais as coisas simples, como uma conversa com meus filhos, um final de semana sem trabalho, um pôr-do-sol, um passeio com meus cachorros e por aí vai. Apesar de não ser um católico fervoroso, me espiritualizei mais também, o que me ajudou a perceber meus diabinhos interiores e a lidar melhor com o diabetes. Percebi que a vida não acaba só porque você precisa tomar alguns comprimidinhos ao longo do dia ou incluir novos hábitos à sua rotina para garantir um bem-estar.

E, se algum dia eu também precisar da ajuda da insulina para controlar a glicemia (a taxa de glicose no sangue), vou tentar encarar o fato com muito mais naturalidade.

Hoje, de médica nova, sigo minha vida de forma mais normal possível, procurando tirar dela o que irá agredir o meu organismo e dar a ele um trabalho extra para funcionar. Eu até descobri alimentos que antes não me atraíam tanto, como saladas, seja de folhas ou legumes e, o que é mais interessante, tornei-me fã de brócolis, maxixe, abobrinha... Também passei a apreciar mais as frutas, principalmente melancia. E, durante essas minhas novas descobertas, percebi que estava ficando com o paladar cada vez mais apurado. O simples fato de ter cortado o açúcar da alimentação me fez sentir o real sabor de cada alimento. Degustar um cafezinho passou a ser uma das coisas mais prazerosas para mim, e sem adoçante! Muitas vezes não conseguimos enxergar a grande variedade de opções saudáveis à nossa disposição, talvez por preguiça ou simplesmente por que resistimos às mudanças. Hoje, sei, com certeza, que viver melhor é algo que depende 100% de nós mesmos, da nossa dedicação e força de vontade. E ninguém precisa ficar doente primeiro para descobrir isso".


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