Uma doença do trabalho
O vínculo com o trabalho é, assim, a pedra de toque da síndrome de Burnout. Por isso, não é raro relatos de que a pessoa apresentava atitudes e condutas normais quando afastada do emprego, vindo a apresentar transtornos intensos quando retornava ou até quando se aproximar do local onde desempenhava suas atividades. Essa associação foi decisiva para a inclusão do Burnout como causa indireta para a manifestação de doenças do trabalho, segundo a psiquiatra Alexandrina Meleiro. “O que pesou para essa classificação foi o fato desta síndrome ser claramente agravada pelo trabalho”, diz.
No decreto 3048/99 que regulamenta a Previdência Social, o grupo V da Classificação Internacional de Doenças (CID) 10, referente aos transtornos mentais e do comportamento relacionados ao trabalho, menciona no inciso XII a “Síndrome de Burnout, “Síndrome do Esgotamento Profissional”, também identificada como “Sensação de Estar Acabado”. O profissional tem direito a afastar-se uma vez que tenha sido diagnosticada a síndrome. O problema é exatamente estabelecer com clareza o diagnóstico pelo fato de a síndrome ser relativamente pouco conhecida dos médicos do trabalho. “É preciso que as empresas se conscientizem da urgência de reavaliar essa cultura de exigir dos funcionários metas às vezes impossíveis para um ser humano”, alerta Alexandrina Meleiro.
Depressão x estresse x Burnout
É preciso deixar claro que a síndrome de Burnout não deve ser confundida nem com estresse ou depressão. No primeiro caso, o aparecimento dos sintomas psicossomáticos (dores de cabeça, insônia, gastrite, diarréia, alterações menstruais) sugere muito mais um estresse ocupacional crônico, algo que os estudiosos do assunto definem com tentativa de adaptação a uma situação claramente desconfortável no trabalho.
Em relação à depressão, a diferença é igualmente sutil, como escreve a psicóloga Ana Benevides-Pereira na página 47 do livro “Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador”: “Chegou-se a cogitar uma sobreposição entre Burnout e depressão, no entanto, tratam-se de conceitos distintos. O que ambos têm de comum é a disforia, o desânimo. Todavia, avaliando-se as manifestações clínicas, encontramos nos depressivos uma maior submissão à letargia e a prevalência aos sentimentos de culpa e derrota, enquanto nas pessoas com Burnout são de desapontamento e tristeza. A pessoa que vivencia o Burnout identifica o trabalho como desencadeante deste processo.”