A enfermeira Sandra trabalhava na UTI de um grande hospi tal, lidando diariamente com pacientes em estado terminal e familiares tensos e chorosos. Muitos anos convivendo com pressão emocional intensa somada às exigências dos superiores para que apresentasse sempre uma imagem de autocontrole levaram Sandra a exaustão e até a uma espécie de aversão às tarefas que sempre adorou fazer. Inicialmente, ela obteve uma licença médica, seguida de um afastamento por quase dois anos. Durante o tratamento médico e depois psicoterápico, ela percebeu que não poderia retornar mais ao meio hospitalar. Prestou um concurso público e começou nova carreira, desta vez como professora de enfermagem.
Essa mudança ‘forçada’ é mais comum do que as pessoas imaginam e tem uma razão: síndrome de Burnout, um distúrbio ainda pouco conhecido da população, mas cada vez mais inerente ao ambiente de trabalho. Não há dados sobre a incidência do distúrbio no Brasil, mas os consultórios de psicólogos e psiquiatras registram um constante aumento do número de pacientes com relatos de sintomas típicos da síndrome.
DEVIDO ÀS PRESSÕES INTENSAS E AO DESGASTE VIVIDO DURANTE A RECENTE CRISE DOS ATRASOS NO HORÁRIO DOS VÔOS, OS FUNCIONÁRIOS DAS COMPANHIAS AÉREAS BRASILEIRAS SE TORNARAM UM ALVO FÁCIL DO DISTÚRBIO
Estresse ocupacional
O problema foi identificado em 1974, nos Estados Unidos, pelo pesquisador Freunderberger, a partir da observação de desgaste no humor e na motivação de profissionais de saúde com os quais trabalhava. O termo síndrome de Burnout resultou da junção de burn (queima) e out (exterior), caracterizando um tipo de estresse ocupacional, durante o qual a pessoa consome-se física e emocionalmente, resultando em exaustão e em um comportamento agressivo e irritadiço. “Trata-se da resposta, ainda que inadequada, a um estresse no trabalho. Boa parte dos sintomas também é comum em casos de estresse convencional, mas com o acréscimo da desumanização, que se mostra por atitudes negativas e grosseiras em relação às pessoas atendidas no ambiente profissional e que por vezes se estende também aos colegas, amigos e familiares”, descreve a psicóloga Ana Maria Benevides-Pereira, autora do livro Burnout: Quando o Trabalho Ameaça o Bem-Estar do Trabalhador (Ed. Casa do Psicólogo, São Paulo, 2002). Assim, ela acrescenta, o “Burnout é sempre relativo ao mundo do trabalho e, importante ressaltar, manifesta- se em pessoas sem antecedentes psicopatológicos”.
A síndrome afeta especialmente aqueles profissionais obrigados a manter contato próximo com outros indivíduos e dos quais se espera uma atitude, no mínimo, solidária com a causa alheia. É o caso de médicos, enfermeiros, psicólogos, professores, po liciais. Recentemente, a categoria dos funcionários de companhias aé reas inseriu-se entre aquelas de alto risco para desenvolver a síndro me, devido às pressões intensas e des gaste vivido durante a crise dos atrasos no horário dos vôos. “Estes profissionais vivenciaram a maioria das condições ocupacionais que desencadeiam o aparecimento da síndrome”, afirma a psicóloga Alexandrina Meleiro, do Ins tituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).
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