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Edição 39 - Janeiro/2007
 
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Gente que deu a volta por cima
  "A minha luta me ajudou a amadurecer "
João Paulo Surian, de 21 anos, enxerga o mundo com apenas 30% da visão esquerda. Mas isso não o impede de levar uma vida normal - aliás, ele acumula as funções de ator, atleta e universitário e é mais ativo do que muitos colegas

POR SHIRLEY SANTOS

FOTO: ARQUIVO PESSOAL
João, na peça encenada pelo grupo da Oficina dos Menestréis

"Quando saíamos para pas sear na infância, minha mãe sempre colocava um boné na minha cabeça. Certo dia, estávamos brincando em um parque e meu pai quis colocar o boné dele em mim. Foi então que ele percebeu que havia algo errado. Eu tinha apenas um ano de idade nesta época, e o acessório não serviu, ficou pequeno. Meus pais me levaram ao médico e, após a realização de uma tomografia, foi diagnosticado a hidroce.falia

No exame, quase não se via meu cérebro, encoberto pela 'água' que se acumulava dentro da minha cabeça. Minha mãe conta que os médicos se surpreenderam pelo fato de, até aquele momento, eu ter conseguido me desenvolver normalmente.

Ainda com esta idade fui submetido a uma cirurgia para colocação de um sistema de drenagem, que "desviava", por meio de um "cabinho de plástico", o líquido em excesso para o estômago. Essa intervenção foi um verdadeiro sucesso, e garantiu que eu ficasse bem pelo menos até os seis anos. Foi nesta ocasião que comecei a sentir um grande peso na cabeça, acompanhado por fortes dores. Eram os sintomas de que algo não estava bem. O motivo era o entupimento da válvula, implantada anteriormente. Foi realizada então a segunda cirurgia, o que me deu condições para retomar a minha vida normal. Além de estudar, eu também praticava esportes como capoeira, natação e atletismo. Como recomendação médica, realizava os exames de acompanhamento clínico anualmente.

Aos 14 anos, eu estava na aula de capoeira quando comecei a sentir novamente os sintomas. Desta vez, não era mais um "simples" problema de entupimento. Era mais delicado. O acúmulo de líquido pressionou o cérebro e comprimiu o meu nervo óptico. Isso afetou completamente a minha visão. Eu dormi enxergando e acordei sem ver absolutamente nada. Houve a necessidade de se implantar uma nova válvula, mais isso não me trouxe a visão de volta.

Outra visão da vida

Na época, a deficiência visual representou o fim do mundo para mim. A idéia de precisar depender dos outros me perturbava demais. Ainda no período de recuperação da terceira cirurgia, época em que fiquei um mês no hospital, surgiu uma nova complicação. Houve rejeição do organismo em relação à nova válvula implantada. Fui direto para a UTI.

A quarta intervenção cirúrgica representava riscos. Os médicos disseram que esta seria a última alternativa. Foi então implantada uma nova válvula interna, atrás da orelha. Após 15 dias eu já comecei a sentir melhoras gradativamente, também precisei fazer fisioterapia visual e motora.

Foram dois meses sem enxergar nada, até que o inesperado (muito esperado) aconteceu. Estava no trânsito com a minha mãe, fazíamos um percurso que passava por uma loja onde havia um slogan muito grande. De repente, comecei a enxergar uma imagem confusa, me arrisquei a ler algumas palavras da propaganda e consegui. Foi uma grande alegria. Ela começou a buzinar sem parar e, então, o trânsito virou uma festa.

Hoje eu me sinto muito feliz com a recuperação de 30% da visão esquerda. A deficiência visual me abriu muitas portas, me trouxe muitas conquistas, momentos bons e, inclusive, novos amigos. Descobri que existe solidariedade entre as pessoas com a mesma condição que a minha.

As possibilidades que surgiram na minha vida me apontaram novas direções. O teatro, que curso há três anos, foi apenas uma entre elas. Trabalho na área de atendimento e estou prestes a começar as aulas na faculdade de Ciências da Computação. Já fiz vários cursos e pretendo ainda este ano retomar a natação.

Tenho consciência da minha condição e a aceito. Percebo que tudo o que tive que passar é porque, de alguma forma, deveria ter acontecido. O apoio da família também foi fundamental. Uma referência também muito importante na minha história até aqui é o doutor Orestes, médico que me acompanhou neste processo. Assim como a minha família, ele sempre me estimulou a ver o lado positivo das coisas. Não me sinto um herói... O que passei simplesmente me ajudou a crescer como ser humano."

Entenda bem
 
Traduzido do grego, o termo hidrocefalia significa "água na cabeça". Normalmente, este líquido cefalorraquidiano (LCR), de aparência clara, é constantemente produzido no interior do cérebro. Uma deficiência no sistema de absorção e circulação - que é feito por cavidades internas do cérebro (os ventrículos) - causa o acúmulo deste líquido. Quando isso ocorre, há um aumento da pressão interior do cérebro, inchando os ventrículos e esticando o tecido cerebral. Em bebês e crianças, que ainda não possuem ossos do crânio fixos, esta pressão resulta no crescimento da cabeça. A tomografia computadorizada e a ressonância magnética são as formas mais eficazes de se diagnosticar a hidrocefalia. O tratamento é feito por meio de procedimento cirúrgico para a implantação de válvulas que drenam o excesso de LCR, "desviando-o" para alguma parte alternativa do corpo. Esta intervenção controla a pressão intracraniana, amenizando os sintomas e prevenindo o avanço da doença. O procedimento não cura, é apenas um cuidado paliativo.
   

 


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