Carolina tinha sido atleta na faculdade — corria quilômetros todos os dias, mas desde que a vida profissional, a rotina do casamento e os filhos passaram a ocupar seu tempo, o sedentarismo se instalou. Ela não chegava a ser tecnicamente classificada de obesa, mas se enquadrava em ‘sobrepeso’, aquela faixa meio indefinida dos quilos a mais que começam a escapar das peças de roupa que antes caíam bem.
Além do desconforto estético, Carolina se cansava à toa e chegava a ficar esbaforida ao subir quatro lances de escada. Por essa razão, o clínico-geral recomendou atividade física urgente.
Motivada, ela começou a visitar academias. Para se decidir, participava ou assistia uma aula em alguma modalidade de ginástica. Sempre de moletom, logo percebeu que destoava das moças de top e roupa de lycra justíssima. Era alvo de olhares e imaginava ouvir comentários sobre sua dificuldade para acompanhar as coreografias das seqüências aerómedo bicas. Durante uma dessas aulas de iniciação, para conseguir ser ouvida em meio ao barulho ensurdecedor da música, a professora gritou para Carolina. “Vai, gorda, capricha que você está precisando”. A nova aluna abandonou a academia aos prantos e nunca mais voltou. Hoje faz aulas semanais com um personal trainer contratado pelo condomínio onde mora. Entre as vizinhas, também há muitas histórias parecidas com essa espécie de ‘pavor de academia’.
O problema é real e afasta muita gente da prática de uma atividade física regular, como atesta Alexandre Menegaz, personal trainer e coordenador de Educação Física do Projeto de Atendimento ao Obeso (PRATO), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP). “As pessoas freqüentemente se sentem desloca das nas academias e não encontram atividades que atendam as suas necessidades ou não recebem a orientação necessária.” Este quadro comum contribui para a falsa idealização de um padrão único no universo fitness.
Estereótipo visual
Reza a tradição que o freqüentador típico, imagem explorada pela publicidade à exaustão nos meses que precedem as temperaturas mais elevadas de final e início de ano, tem o corpo bonito, é magro, usa roupas ‘transadas’ e que deixam a barriga (reta, estilo ‘tanquinho’) à mostra.
“Neste universo, existe uma cobrança tremenda em torno do visual, chegando a qualificar para freqüentar algumas academias aquela pessoa que já apresenta determinadas medidas, o que é uma tremenda incoerência”, comenta o especialista Alexandre Menegaz, do PRATO.
Para o preparador físico Marcos Paulo Reis, dono da MPR Assessoria Esportiva, há resistência também ao ‘buxixo’ e ao ‘tititi’ de academia. “Outro fator que frustra muita gente é a existência de pacotes de atividades previamente formatados, não individualizados”, conta Marcos Paulo, personal trainer de famosos como a apresentadora Daniela Cicarelli, que se submete a duas horas diárias de malhação intensa e supervisionada por ele. Modelos físicos esculpidos como o de Cicarelli, aliás, ajudam a disseminar a estética da malhação.
7 DICAS PARA CRIAR CORAGEM DE VEZ
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| A IMAGEM QUE SE CRIOU DE UM FREQÜENTADOR DE ACADEMIA — MAGRO, SARADO E BONITO — É UMA DAS PRINCIPAIS RAZÕES PARA O AFASTAMENTO DE ALUNOS |
1. Procure uma orientação profissional antes de começar a suar. O clínico-geral pode solicitar exames para avaliar a resposta do coração sob estimulação do exercício, enquanto que o professor de educação física utiliza parâmetros como a idade do aluno para determinar a freqüência cardíaca máxima durante uma atividade física.
2. Busque um tipo de atividade com a qual você se identifique, seja para praticá-la em academias, no parque ou em espaços alternativos.
3. Insira essa atividade em sua rotina de vida, com horários e dias previamente estabelecidos. Para trazer benefícios à saúde, a prática deve ser regular.
4. Lembre-se que a atividade física deve ser sempre prazerosa. Se a experiência for sofrida ou desagradável, busque outras alternativas.
5. Use roupas que sejam confortáveis para você — e que não necessariamente estejam na moda — e não esqueça de se hidratar. 6. Procure perceber a melhora no seu corpo com a manutenção da atividade, como maior fôlego, disposição e bem-estar.
7. Qualquer iniciativa para combater o sedentarismo é válida. Só o fato de uma pessoa passar a andar mais, por exemplo, torna a sua resistência física melhor do que a de quem não faz nada.
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